Sobre discussões técnicas em aula ou ambiente digital

Achei por bem abordar o assunto hoje, até porque eu sumi das discussões digitais e algumas pessoas me perguntam o motivo. A maior parte nem pergunta mais: tem sido complicado dar conta de tanta coisa nesse momento.

Quando há necessidade e eu sou chamada, no entanto, eu apareço e esclareço a questão técnica em questão. Acho que é o meu papel.

O motivo deste artigo é chamar atenção para um fenômeno que venho observando como padrão, ao longo dos meus vinte e tantos anos como professora de ensino superior: é o indivíduo que projeta na discussão um desconforto interno. Creio que quase todo leitor vai recordar de algum exemplo ao longo do texto.

Abre-se um tópico, pessoas comentam ou fazem perguntas. Então vem um sujeito (ou mais) e faz, em geral, um comentário crítico. Leva tempo para entender exatamente qual é o foco da crítica, porque o texto ou discurso do interlocutor é longo e elaborado. No entanto, está lá: há uma crítica. O grupo ou outro interlocutor responde. Em seguida, aquele mesmo indivíduo apresenta outro ponto de crítica, não relacionado ao primeiro. Também bem elaborado.

Se não houver uma moderação objetiva e “de professor”, em pouco tempo o que deveria ser uma discussão coletiva vira um diálogo. E aquele indivíduo expressa um rosário de desconfortos com o tema, o texto, o autor, seja lá o que for.

Eu vi isso acontecer umas… centenas de vezes. É mais chato em aula presencial, porque em 10 minutos o resto da classe começa a se mexer na cadeira. Nasce o desconforto contra o desconforto. As pessoas em geral não levantam a mão para solicitar: “professora, isso está enchendo o saco e não me interessa. Daria para voltar para a aula?” Quando isso acontece é sinal que a gente, como professor, falhou em exercer a autoridade.

E aí a aula degenera: começa um conflito entre o sujeito original cheio de desconfortos e vários outros alunos.

Outro padrão é o do aluno que resolve ser o foco das atenções e dar aula junto com o professor. Tem professor que é devorado por esse tipo de aluno. A turma detesta. É aquele aluno que tem algo para dizer sobre tudo, o tempo todo, e faz questão de exibir erudição sobre todos os tópicos. O professor, com a vantagem de estar de frente para a classe, percebe o olhar de ódio dos demais alunos, que estão fantasiando enforcar a estrelinha. Por incrível que pareça, isso acontece até mesmo em cursos caros e pagos.

Eu tenho um certo orgulho em dizer que isso não acontece nas minhas aulas. Eu percebo rapidamente a coisa. Principalmente porque, no presencial, eu olho todos os alunos nos olhos.

Pois bem, eu não deixo isso acontecer. A questão de ser ou não autoritária é uma não-questão: é minha obrigação garantir o espaço de todos, reprimindo relativamente a expressão destes indivíduos quando invadem e pervertem a discussão geral. São pessoas que só vão conseguir superar este comportamento quando entenderem que é a manifestação de uma neurose sua, e decidirem trabalhá-la com um terapeuta. A classe não é espaço para isso. Nem o grupo digital.

É isso.