Reinventando a roda: quando a falsa autoridade vem de pesquisa redundante

O problema com o “publish or perish” é que o sujeito TEM que publicar, nem que seja lixo. Nem que seja para demonstrar que numa amostra standardizada de aranhas com n=150, em triplicata, 100% fica surda se as 8 pernas forem arrancadas.

Já vi de tudo nesse mundão de meudeus das universidades brasileiras: professor titular medindo atividade respiratória de diferentes espécies de copépodos, com zero acréscimo em conhecimento científico universal, às custas de grana da FAPESP para viajar para lugares paradisíacos para coletar outras espécies de copépodos que respiravam da mesma maneira.

Agora temos uma demonstração quantitativa sobre a alteração de movimento no levantamento terra causada pelo uso de strap.

Putz… vai mudar a vida de todo treinador de força. Vai todo mundo sair correndo e mudar o planejamento competitivo dos seus atletas. O Hugo vai fazer terapia 4 vezes por semana. Por uma semana, pairará a dúvida sobre como proceder nos esportes de força.

Só que não.

Todo mundo já sabe isso há uns 60 anos. Desde que strap era pedaço de faixa de judô arrebentada.

Sério mesmo: publicar um artigo sobre isso tem lá sua validade. mas não torna ninguém expert em esporte. Só dá um “up” no Lattes do neguinho.

Vamos ver os próximos: vamos provar que atividade física regular melhora a condição de mulhers pós-menupausa com osteoporose? Ou que inativos podem adotar diferentes protocolos que dá na mesma? Ah, tudo bem: escolhe aí um desses tópicos que qualquer treinador de força já sabe há meio século. Pelo menos.

Para indivíduos inativos, quase todo protocolo funciona

Sério mesmo, tenho toda a simpatia pelos colegas que estão no sistema público de ensino superior e pesquisa, precisam apresentar produção constante para complementar o salário, para ter um lugar ao sol ou simplesmente para existir no sistema e se desesperam para publicar qualquer coisa. Um dia essa exigência fez sentido mas, como tanta coisa, acabou sendo pervertida.

O problema, como quase sempre, é a transparência. Não precisa vir a público reclamar do sistema, dizer “olha a porcaria que eu fui obrigado a publicar” – nada disso. Deixa quieto: a gente entende.

Agora, ter uma coleção de obviedades publicadas com inativo, mulheres peri-menopausa, aluno, rato, gato, bactéria e bater no peito se dizendo a última trakinas do pacotinho nas ciências do esporte não dá.

Da hora entender como atividade física funciona com inativos. Na verdade, talvez socialmente até mais relevante. Mas não pode em hipótese alguma generalizar os resultados para atleta. A única coisa em comum entre os dois grupos é pertencer à mesma espécie (e olhe lá, hein).

O que vale para inativo raramente vale para atleta ou indivíduo treinado. Ter uma coleção de publicações com essa população não dá a ninguém autoridade para falar grosso como cientista do esporte.

Sabe quem é a vítima desse comportamento? O recém-formado, o treinador sem formação avançada, ou o colega tetando se encontrar no mar de informação científica. Ele não tem obrigação de entender como funciona o sistema acadêmico e cai como um pato nas estorinhas para boi dormir que os gurus da falsa ciência do esporte contam.

Feio isso, hein.

Vou contar um segredinho para vocês: eu gasto um tempinho de cada curso com o capítulo sobre o que NÃO se sabe naquele tema. Sabem por que? Primeiro, porque nosso aluno trabalha no mundo real e é mais importante dar a ele instrumentos para se virar nas situações em que a ciência não resolve o problema dele. Segundo, porque sinceridade não constrói guru, mas não enganar o próximo ajuda a dormir melhor.

Precisamos falar sobre distância e tecnologia: treinamento e programação online – parte 1

Parte 1: por que a programação e treinamento online são uma opção cada vez mais atraente

Eu moro nos Estados Unidos. Hugo Quinteiro, meu parceiro de trabalho, treino e competição, no Brasil. Os alunos e atletas que nos contratam para treiná-los estão por toda parte: Venezuela, Austrália e pelo menos 4 estados do Brasil.

A realidade é que uma soma de fatores colocou a opção do treinamento e programação de treino online como a preferencial para uma parte significativa e crescente dos usuários deste serviço no primeiro mundo. Alguns destes fatores são fáceis de discutir e bons. Vamos a eles:

1.   A tecnologia da informação e os aplicativos para celulares e computadores permite um grau de interação cada vez maior entre treinador e atleta e aluno. Podemos observar o treino de um aluno em tempo real ou podemos repetir um vídeo dezenas de vezes até identificar todos os problemas no padrão de movimento. Podemos conversar – com voz e vídeo ou por texto – diáriamente com eles. Perto de uma competição, isso se torna crítico.

2.   O treino online programado requer a compra de um pacote e uma planilha periodizada. A verdade é que talvez essa seja uma das poucas oportunidades em que o aluno terá esse grau de cuidado com o seu treino. A imensa, esmagadora maioria dos personal trainers NÃO programa detalhadamente o treino de seus alunos. Isso não é necessariamente catastrófico, mas como Benjamin Franklin dizia, “fracassar ao planejar é o mesmo que planejar o fracasso”.

3.   Contratar um personal trainer ficou cada vez mais barato. Na academia que eu frequento, por US$80.00 a mais por mês, há uma promoção de disponibilidade ilimitada de um treinador pessoal. Isso pode fazer a hora do treinador cair para US$4.00. A maioria deles não tem formação acadêmica ou experiência em treinamento para oferecer um trabalho de qualidade. Sinceramente, por essa remuneração é impossível exigir qualquer coisa.

4.   O resultado disso é que os bons treinadores não estão necessariamente próximos a você. Por mais que seu treino seja essencial, ele também é obrigatoriamente consistente para funcionar, ou seja: você deve treinar de 3 a 5 vezes na semana. Se o seu treinador está a 3 horas de distância de você, de duas uma: ou você abdica de estudar ou trabalhar, ou muda para a cidade dele. Não é preciso ir tão longe: em São Paulo, se você tem que se deslocar por 1,5h para ir tantas outras para voltar do local onde está seu treinador, eventualmente você vai abandonar o treino porque ninguém tem 3-4 horas disponíveis só para esse deslocamento (considerando que você também se desloca para outros lugares durante o dia).

5. Boa parte dos bons treinadores no primeiro mundo já oferece as opções online e uma parte significativa tem muito mais alunos online do que presenciais. Um aluno presencial não dá mais trabalho do que um online, mas a demanda, para quem já tem um nome, é maior pelo treinamento online. O motivo inclui os ítens acima, mas também o fato de que é infinitamente mais barato: treinar com um bom treinador três vezes por semana pode custar, aqui, mais do que US$1200.00 por mês. Comprar um pacote de treino online para o mesmo período varia entre US$90-200.

Programar não é das coisas mais fáceis. Não basta dominar a literatura sobre periodização e princípios de treinamento: é preciso prática. Eu programo treinos há 10 anos. Sei disso porque recentemente enviei todas as minhas planilhas para um folder comum para uso da minha equipe e as primeiras datavam de 2006. Depois do nosso curso de periodização, tenho oportunidade de revisar os programas de alguns treinadores. Melhoram muito, mas para chegar no ponto em que temos a segurança sobre cada exercício de um programa é preciso bastante tempo de experiência com essa modalidade de treinamento.

Funciona. Se não funcionasse, não estaria crescendo. Não é um mundo fácil: hoje, qualquer atleta que suba no palco (bodybuilding) ou faça um bom total (powerlifting e weightlifting) já começa a oferecer treinamento online.

Nos próximos artigos, vou discutir para quem serve o treinamento e programação online e também como escolher seu treinador. Vamos discutir também como é montado o treino de um aluno à distância e como é monitorado.

O barato da certificação

Se você fizer os 6 níveis da MAD, você tem uma certificação em “powerlifting”? Não. Sabe por que? Porque é ilegal. Também é ilegal ter certificação em Pilates: a família do Pilates ganhou um processo há alguns anos que impede que isso aconteça. Você ganha um certificado de que fez um curso sobre força e condicionamento – um deles, dos vários que a gente oferece.

Parece que estamos dando um tiro no pé, já que todo mundo anda atrás de certificações. No entanto, apesar de admitirmos que aprendemos muito com a galera “esperta” em marketing, nós, da MAD, estamos pendendo para a linha do “marketing realista” (que tem essa inovação da honestidade).

A gente dá um certificado para vocês. Igualzinho a quem oferece “certificação”. Um dia, quando o curso se tornar uma especialização registrada no MEC-CAPES, você vai receber um DIPLOMA com carimbo do MEC. Com a mesma validade dos da Marilia Coutinho, Ph.D. ou doHugo Quinteiro – Powerlifter, de mestrado e doutorado.

A gente é contra certificações? Não, a gente não é. Mas na linha do marketing realista, a gente é obrigado a dizer para vocês que seu aluno (cliente) realmente não liga ou não sabe avaliar suas certificações. Isso é verdade no Brasil e nos Estados Unidos.

Aqui, nos Estados Unidos, para contratação em determinados cargos de coach, há uma lista de menos de meia dúzia de certificações que são consideradas importantes (veja entre os artigos da compilação abaixo). Numa boa, uma certificação supimpa em powerlifting não ajuda na briga a tapa por uma vaga de coach assistente num departamento esportivo de uma grande universidade. Personal trainer? Pfff…. todo mundo sabe que o que conta é o seu sucesso anterior com outros alunos (clientes). Seu aluno não sabe o que significam as siglas.

Então, colega, faça o curso da MAD pela QUALIFICAÇÃO que a gente oferece, e não pela CERTIFICAÇÃO. Quanto a essa, a gente promete que o certificado é bonitinho, em papel couche e que as pessoas que realmente manjam de treinamento no Brasil vão entender. Mas só eles. Seu aluno, não: para ele, é só mais um diploma na parede.

Strength and conditioning certifications: why and which matter, for what

Entrevista com Vinicius Barbosa

MAD – Fale um pouco sobre você, Vinicius: onde e quando nasceu, como foi sua infância e como é sua família.

Sou de Goiânia, Goiás. Nasci em 1985, quando as crianças brincavam muito mais nas ruas e computadores e jogos eletrônicos ainda estavam por vir. Joguei muito “golzinho” na rua do prédio em que eu morava, rodava o bairro de bicicleta e patins, adorava artes marciais – pratiquei caratê durante alguns anos – e também fiz natação. Os jogos contra outros prédios do bairro nos campos de terra renderam momentos inesquecíveis! Na escola nunca me furtei de participar das modalidades da educação física obrigatória: futsal, basquete, handebol e vôlei. Foi uma infância movimentada, eu diria.  Do tipo que não se vê mais hoje em dia.

MAD – Quando você era pequeno, o que mais interessava você?

Eu adorava artes marciais. Assistia a todos os filmes do gênero e praticava caratê. Também jogava muito futebol.  A gente chutava bola de meia, tampinha de garrafa, fazia golzinho na rua, campo de terra, e tudo mais que se podia inventar. Mas eu dividia estas atividades com o vídeo game, era a época de ouro do Super Nintendo e depois a primeira geração do Playstation. Eu não sei como conseguíamos fazer tanta coisa naquela época! Em meados da década de 90 ganhei meu primeiro PC. Aquilo me fascinou; passei a dizer que queria me formar e trabalhar com computação. E mais tarde foi justamente o primeiro caminho que segui profissionalmente.

MAD – Escolha profissional: como você escolheu o que estudar e como foi a “primeira carreira”?

No 2º ano do ensino médio entrei no curso técnico de Telecomunicações, já pensando na Engenharia de Computação que pretendia cursar posteriormente. Terminado o curso de Telecom ingressei, via concurso, na Celg (Companhia de Energia Elétrica de Goiás) e ao mesmo tempo iniciei meus estudos em engenharia de computação na Universidade Federal de Goiás. Foram mais de 5 anos de curso superior no qual, embora eu tivesse boas notas e tenha feito grandes amizades, eu nunca me senti integrado naquele mundo. Um indício disto era minha falta de interesse em assuntos de computação e programação fora do currículo escolar. Eu até estudava! Me graduei com média global acima de 8. Razoável, não? Mas aquilo não era minha vocação. Acredito que o relativo sucesso nos estudos vieram da minha educação de base, mas não de um talento para mexer com computação.

MAD – Você fez uma das coisas consideradas mais ousadas na nossa sociedade super-especializada: trocou de profissão. O que motivou você a fazer isso?

Eu tinha meu diploma em engenharia de computação e um emprego estável. Mas não estava feliz! Não exercia uma função que me fosse gratificante, fazia muitas horas-extras, e foi crescendo um sentimento de insatisfação. O momento de tomar uma decisão mais drástica era aquela. Eu sabia que esta decisão significaria dar vários passos para trás até recuperar a estabilidade financeira e profissional que eu já havia conquistado. Mas eu estava com vinte e poucos anos ainda! O momento de arriscar era aquele, eu não poderia me acomodar naquela zona de conforto ilusória. Com o suporte da minha esposa (sem ela nada disto seria possível), iniciei um projeto totalmente novo, tanto pessoalmente quanto para o mercado “fitness”: abri a Arena Performance, um centro de treinamento pautado nos exercícios livres com barra e kettlebells. Este desafio duplo tornou a jornada ainda mais complicada. Primeiramente eu entrava em um campo profissional e em um mercado totalmente estranho, sobre o qual eu conhecia muito pouco. Como se não bastasse, escolhi seguir uma linha de treinamento que o grande público ignorava e ainda desconhece bastante. Quando fundei a Arena Performance não havia ocorrido este “boom” do Crossfit aqui no Brasil, tornando a adesão de novos alunos ainda mais difícil. O que me fez perseverar neste caminho foi uma certa vocação: quando você é chamado a fazer algo que vai além de qualquer recompensa imediata, que de alguma forma você não consegue deixar de fazê-lo. Confesso que já pensei em desistir. Mas não o fiz porque depois que trilhei este caminho, não me imagino fazendo outra coisa.

MAD – Por que força é tão importante?

Ser forte para mim está ligado a todas as decisões e aos rumos que tomaram minha vida desde que conheci o treino de força. Então não significa apenas ter músculos ou levantar mais carga. Eu escolhi ensinar as pessoas a se tornarem mais fortes, mostrar a elas que há mais para se ganhar do que apenas estética. A força está no CERNE de todo ser humano e as pessoas precisam redescobrir isto.

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MAD – Você escreve bastante sobre métodos de treinamento. Qual foi sua motivação para “fazer diferente”?

O treinamento tradicional feito em aparelhos nunca me chamou a atenção. Entrei na academia para me manter ativo. Estava sedentário, já não praticava com regularidade nenhum esporte, e a academia tradicional era a opção mais fácil para retomar algum nível de atividade física. Não satisfeito com aquela rotina nos aparelhos, comecei a pesquisar sobre treinamento físico e descobri outro mundo: o treinamento com pesos livres (levantamento básico, olímpico e kettlebells). Entrei de cabeça neste mundo, estudando e praticando. Aquilo sim fazia sentido! Treinar o corpo de forma integrada, através de movimentos que são o padrão fundamental da nossa motricidade e da nossa fisiologia. Eu olhava ao meu redor e não via absolutamente uma alma fazendo nada daquilo; professores instrutores das academias também totalmente alheios. Eu vi que eu poderia fazer diferente e melhor.

MAD – Arena: como está sendo a experiência de uma proposta alternativa? Quem é seu público? Como você vê o “fitness alternativo” no Brasil?

Tem sido bastante desafiador alavancar um projeto como a Arena. As mídias sociais e a popularização do crossfit têm ajudado bastante. Este ao utilizar muito dos exercícios que também utilizamos e por adotar um visual mais rústico apresenta um modelo de fitness para a sociedade que se parece com a nossa proposta, eliminando muito do estranhamento inicial e rejeição; as mídias sociais garantem uma exposição e divulgação únicas, fundamental no processo de formação e comunicação com o público que está insatisfeito com as academias tradicionais e buscam alternativa. O “fitness alternativo” está crescendo, mas tem sido parasitado pelas academias tradicionais, que abrem espaços específicos para a prática do que chamam de aulas de “funcional” e “cross”. Estes espaços, no entanto, não representam uma quebra de paradigma em como pensar o treinamento, mas simplesmente é uma resposta ao modismo, uma opção a mais entre quinhentas outras modalidades que a academia oferece ao aluno. Resumindo: uma jogada de marketing. Centros de treinamento que verdadeiramente fazem diferente existem, ainda são poucos, mas muito promissores.

MAD – A carreira de atleta de powerlifting: como foi subir no tablado pela primeira vez? E agora, para onde vai?

Escrevi em meu blog à época do primeiro campeonato que participei. Ali está registrada a experiência ainda fresca na memória, com os sentimentos mais aflorados. Transcrevo abaixo:

“…foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Impossível descrever em palavras o que aconteceu. Fiz um agachamento 10kg e um terra 15kg mais pesados que meus máximos de treino, e se eu já relatei aqui como é diferente a dinâmica do treino de força – regularmente testando seus limites, se superando treino após treino, vivendo momentos marcantes e ficando cada vez mais forte a cada ciclo de treinamento – absolutamente NADA se compara ao momento em que você completa uma repetição máxima em um tablado competitivo, em um meet de powerlifing. Não se trata ali de superar adversários, de ganhar ou sair premiado. Não. Trata-se antes de, por alguns segundos, se desligar completamente de toda complexidade mental e emotiva com as quais nos cercamos, e contemplar a essência física de SER humano. Ainda fico meio atônito, me pego muitas vezes com cara de paisagem, olhar longe e coração meio acelerado quando paro para reviver aquelas horas. Como consequência de tudo isso, a motivação e o foco para treinar estão em outro nível, muito mais elevados, e a própria experiência de treino está diferente… Enquanto escrevia este post, me recordei desta entrevista com a Marilia Coutinho, na qual ela fala sobre o levantamento perfeito:

“O levantamento de peso tem uma dimensão técnica. A segunda dimensão é neural. A terceira é mental. Mas existe um quarto passo, quando tudo isso se integra e transcende. Pra mim a execução muito integrada de um levantamento é um ato perfeito. Só vivi isso umas três vezes. Já não sou eu, não é o meu corpo, minha mente. Não tem peso na sua mão. Não tem mão! Uma dissolução tão grande que é como se o movimento fosse a única coisa acontecendo. E, por ser movimento, ele passa. Mas naquela hora não há temporalidade. É um momento de iluminação: você entende a natureza do movimento e, ao entender isso, você entende quem você é.” “

Meu objetivo é alcançar marcas cada vez mais expressivas para em futuro próximo participar de um campeonato mundial. A tarefa é árdua. Conciliar a gestão da academia, com aulas, treinamento, alimentação e família é complicado. Mas vejo essa busca como uma peça fundamental na minha carreira e também pessoalmente.

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MAD – Treinar atletas e treinar pessoas em busca de outros objetivos: é diferente? De que jeito?

Muito diferente. O atleta tem uma motivação intrínseca em ser cada vez melhor, então o desafio se torna escolher os meios e métodos de treinamento mais eficientes para os objetivos dele. Próximo à competição vem aquela expectativa, a prova definitiva se as escolhas foram acertadas ou não. Lidar com o público em geral requer outras habilidades. Creio que a principal delas é a capacidade de manter a adesão do aluno ao programa de treino. Então não basta ser um expert em métodos de treinamento e periodização, é preciso motivar, explicar, incentivar. Existe uma carga emocional e psicológica muito grande quando se trata do público em geral. Este aspecto no atleta é mais específico, está ligada à competição em si. No aluno comum é uma miríade de fatores: familiares, conjugais, financeiros etc. Acrescente a isto a reeducação alimentar que este aluno muito provavelmente deve fazer! De fato não é fácil.

André Giongo: lei, luta e esporte

André, onde e quando você nasceu? Conte um pouco como era sua infância, se você brincava muito na rua ou era um garoto videogame. O que você mais gostava de fazer?

Resposta:  Nasci em São Paulo no ano de 1976. Minha infância foi bem diferente do que vemos hoje em dia. Na minha época ainda não tinha vídeo games, brincávamos na rua jogando bola, brincando de policia e ladrão, esconde-esconde, pega-pega, siga o mestre entre outras brincadeiras.

Nessa época inventaram o primeiro vídeo game chamado Atari, porém nunca gostei de vídeo game, meu negocio era brincar na rua, ter aquela liberdade para correr, saltar, cair, se machucar…  

 

Quando você começou a praticar esportes? Quais eram? O que você gostava mais?

Resposta:  Comecei na escolinha de esportes do clube Banespa, onde aprendíamos todas as modalidades. A modalidade que eu mais gostava era o futebol.

Porém quando era pequeno adorava uma confusão e para aprender a me defender e “gastar energia” meu pai me levou para  conhecer o Judo, que pratiquei durantes uns anos. Depois voltei para o futebol e esportes de quadra.   

 

Como foi a sua relação com os vários esportes até chegar aos de força? Quais esportes você se interessa mais, mesmo sem praticar?

Resposta:  Até os quinze só praticava esportes de quadra, sendo o meu favorito o handball, o qual joguei durante algum tempo pelo Esporte Clube Sírio e  pelo Clube Banespa. Quando fiz quinze anos voltei a praticar luta e comecei a fazer capoeira com o Mestre Santana da Luna e lá conheci a Abadá-Capoeira do Mestre Camisa. Em São Paulo naquela época tinha um grupo de capoeirista comandos pelos capoeiristas  Peixe Cru e Tucano Preto que estavam entrando para o grupo Abadá. Treinava com eles aos sábados na USP. Nessa época começou a surgir em São Paulo o Jiu-jitsu, em meados de 1993/94. Porém o jiu-Jitsu era caro para se praticar e no  inicio apenas as academias “mais chiques” tinham esse  modalidade. Diminui os treinos de capoeira para praticar musculação pois queria ficar grande e forte. Logo na sequência, um conhecido do bairro começou a dar treino de Jiu-jitsu. Como tínhamos amigos em comum, acabei indo treinar Jiu-Jitsu com o Roberto Godoi, faixa marrom na CBA Academia. Treinei Jiu-Jitsu durante uns 4 anos, sendo 2 anos direto e 2 anos treinando e parando por causa do trabalho. Já tinha uma noção boa de chão e resolvi aprender Boxe. Comecei a treinar com o Atila Cebola, que puxava os treinos de boxe na extinta Godoi Macaco, onde treinei entre dois e três anos. Foi quando um amigo começou a dar aula de Muay Thai, o Gustavo Treta, na academia do Roney Alex, conhecido e renomado mestre de Muay Thai. Me convidou para treinar com ele, pois tinha uma  boa noção de mão e precisava aprender a chutar. Começamos a treinar na Av. Jandira onde o Mestre Roney Alex puxava os  treinos da equipe dele. Na sequência o Gustavo Treta arrumou uma academia para dar aula e fui com ele como assistente. Nesse período e através do Luiz Azeredo, vulgo Luizinho, que já estava na Chute Boxe e Gustavo Treta, também começou a fazer parte da Chute Boxe Sp. Nessa época as lutas ainda não tinham tanto espaço na mídia como hoje em dia. Foi aí que eu percebi que estava diante de um dilema: ganhar dinheiro ou fazer o que gostava. Acabei optando por fazer o que gostava, mesmo que isso me levasse a cursar outra faculdade e começar do zero tudo de novo.           

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Você estudou direito e depois Educação Física. Como foi essa opção? Você acha que o direito ajuda você a pensar o treinamento e o esporte?

Resposta:  Sou bacharel em dIreito, porém não tirei a OAB, pois quando me formei estagiava de manhã na Prefeitura de São Paulo na Regional da Sé e depois na Rgional da Vila Mariana e  trabalhava com atividade física, dando aula de Muay Thai e Musculação no período da tarde. Foi aí que percebi que minha praia era a dos esportes e não a jurídica. Então  voltei  a estudar e me formei em Educação Física.

O direito é uma faculdade que deveria ser obrigatória para todos,  pois ela abre muito a sua cabeça em relação aos seus direitos e deveres. E tem me ajudado muito na área da Educação Física, pois o Direito não é uma ciência exata, ele é muito subjetivo, pois depende da interpretação pessoal do que está escrito. A Educação Física também não é ciência exata e isso é o que mais me atrai nela,  pois cada aluno tem o seu tempo de  desenvolvimento, de aprendizagem, de aperfeiçoamento motor.    

 

Como você se define como treinador? O que é ser treinador para você?

Resposta: Sou uma pessoa  calma e bem paciente, porém como treinador  sou um cara exigente e até chato. Só paro de pegar no pé do aluno quando ele estiver realizando o exercício de maneira correta. Vou confessar uma coisa, gosto de ver o aluno sofrer, de sentir que ele esta se dedicando aos treinos e o mais gostoso é ver a cara de satisfação do aluno quando atinge um objetivo.

Ser treinador, na minha concepção, é incentivar o aluno a sempre estar fazendo o seu melhor, é ser um pouco psicólogo, amigo, irmão mais velho, dar conselhos e influencia-lo  de maneira positiva não só durante o treino para que ele seja uma pessoa melhor durante a sua vida, independente de estar treinando comigo ou não.      

 

Fale um pouco sobre o fisiculturismo, sua passagem por ele, e a herança para os demais esportes de força

Resposta: O fisiculturismo apareceu em minha vida na época  em que trabalhei na  Espártaco  Academia, como existiam muitos atletas que treinavam lá e depois de preparar um aluno para competir, resolvi botar a cara a tapa e competir também. Isso aconteceu em 2006: competi na Copa Corpo e Saúde da Academia Gaviões de Guarulhos, onde fui campeão da categoria Class I nível intermediário.  

Uma coisa que acredito é que para você poder falar de alguma coisa, ou trabalhar com algo você precisa conhecer, praticar, vivenciar. Por isso acredito que um bom professor tem que saber treinar, não precisa ser atleta, mas tem que, pelo menos colocar a mão na massa e treinar.

O fisiculturismo apesar de trabalhar com pesos é considerado uma  modelagem física, pois na hora da competição não depende da sua força para vencer, diferente de outros esportes de força onde o mais forte é testado na prova.        

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Musculação: o que é isso para você? Se você tivesse que transformara as salas de musculação no seu ideal, como faria?

Resposta: Hoje vejo a musculação com outros olhos. Quando comecei a treinar a musculação só servia para o praticante conseguir um corpo mais hipertrofiado e bonito. A musculação era muito mal estudada, existia um monte de restrições para quem quisesse praticar. Nos dias de hoje a musculação passou de um esporte mal visto, para um esporte que é indicado por cardiologistas,  por fisioterapeutas, por geriatras. Esses são apenas alguns exemplos de como podemos usar a musculação para melhorar a saúde de nossos alunos.

Minha sala de musculação seria com poucas máquinas e muito peso livre. Usaria as máquinas em determinadas situações que elas fossem realmente necessárias.  Exemplos leg press,  lat pull down,   Muitas gaiolas de agachamento, bancos de supinos, tablados para fazer o levantamento terra e os levantamentos olímpicos, kettelbel, elásticos, correntes, caixotes,  anilhas e barras.                 

 

Quem são seus ídolos no esporte? Com quem você mais aprendeu?

Resposta: Meus ídolos são:

Nas artes marciais o Hélio Gracie, que só começou a praticar o jiu-jitsu depois de alguns anos vendo seu irmão ministrar as aulas. E por ser muito pequeno e leve teve que aprimorar o jiu-jitsu para as suas  necessidades, surgindo assim o Brazilian jiu-jitsu ou Gracie jiu-jitsu.

No futebol o Ronaldo fenômeno pela sua força de vontade e superação dentro e fora dos gramados. Além de ter sido jogador do Corinthians meu time de coração. 

Cheguei onde queria, meus ídolos nos esporte de força, são José Carlos Vidal que tive a oportunidade estagiar e depois trabalhar com ele no Esporte Clube Sírio.. Uma pessoa humilde, de um conhecimento ímpar sobre os esportes de força, pois foi praticante de LPO  (com  alguns títulos regionais e nacionais), de powerlifting (vários títulos regionais,  nacionais e internacionais), luta de braço, mais conhecido como braço de ferro ( sendo campeão mundial algumas vezes com os dois braços)

E claro minha amiga e antiga parceira de treinos Marília Coutinho, a história de superação dela é impressionante. Uma mulher muito inteligente, corajosa e muito, mas muito forte.

Ela é a única mulher da América latina à ser campeã interfederativa ( ou seja todas as federações juntas) de agachamento em 2012 e é a atual campeã interfederativa de supino em duas categorias diferentes.               

Mestre Vidal Porão

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E a pergunta que não quer calar: por que você inventou a MAD? O que espera dela?

Resposta: A MAD surgiu durante um treino nosso, como sempre estávamos conversando sobre como poderíamos ganhar dinheiro fazendo o que gostávamos. Nessa época a Marilia já estava realizando o curso de 5 levantamentos com O Joel da CrossfitBrasil.  Pórem o crossfit cresceu muito rápido e como o Joel era um dos responsáveis pelo crossfit no Brasil ele acabou ficando sem tempo para fazer os cursos com a Marília. Foi daí que eu tive a idéia de criar uma equipe para ministrar os cursos de powerlifting, tendo como principal professor, claro que a própria Marília.   A idéia inicial era Marília como professora titular e eu apenas como ajudante, mas como estava trabalhando como personal e não tinha muito tempo extra para me dedicar a MAD, a Marília chamou um aluno que ela conheceu quando dava um  curso pela Gama Filho.  Assim surgiu a primeira formação da MAD, que passou algumas mudanças e agora contamos com uma série de professores muito bem qualificados e que além de saberem ensinar também praticam o que ensinam.