Precisamos falar sobre distância e tecnologia: treinamento e programação online – parte 1

Parte 1: por que a programação e treinamento online são uma opção cada vez mais atraente

Eu moro nos Estados Unidos. Hugo Quinteiro, meu parceiro de trabalho, treino e competição, no Brasil. Os alunos e atletas que nos contratam para treiná-los estão por toda parte: Venezuela, Austrália e pelo menos 4 estados do Brasil.

A realidade é que uma soma de fatores colocou a opção do treinamento e programação de treino online como a preferencial para uma parte significativa e crescente dos usuários deste serviço no primeiro mundo. Alguns destes fatores são fáceis de discutir e bons. Vamos a eles:

1.   A tecnologia da informação e os aplicativos para celulares e computadores permite um grau de interação cada vez maior entre treinador e atleta e aluno. Podemos observar o treino de um aluno em tempo real ou podemos repetir um vídeo dezenas de vezes até identificar todos os problemas no padrão de movimento. Podemos conversar – com voz e vídeo ou por texto – diáriamente com eles. Perto de uma competição, isso se torna crítico.

2.   O treino online programado requer a compra de um pacote e uma planilha periodizada. A verdade é que talvez essa seja uma das poucas oportunidades em que o aluno terá esse grau de cuidado com o seu treino. A imensa, esmagadora maioria dos personal trainers NÃO programa detalhadamente o treino de seus alunos. Isso não é necessariamente catastrófico, mas como Benjamin Franklin dizia, “fracassar ao planejar é o mesmo que planejar o fracasso”.

3.   Contratar um personal trainer ficou cada vez mais barato. Na academia que eu frequento, por US$80.00 a mais por mês, há uma promoção de disponibilidade ilimitada de um treinador pessoal. Isso pode fazer a hora do treinador cair para US$4.00. A maioria deles não tem formação acadêmica ou experiência em treinamento para oferecer um trabalho de qualidade. Sinceramente, por essa remuneração é impossível exigir qualquer coisa.

4.   O resultado disso é que os bons treinadores não estão necessariamente próximos a você. Por mais que seu treino seja essencial, ele também é obrigatoriamente consistente para funcionar, ou seja: você deve treinar de 3 a 5 vezes na semana. Se o seu treinador está a 3 horas de distância de você, de duas uma: ou você abdica de estudar ou trabalhar, ou muda para a cidade dele. Não é preciso ir tão longe: em São Paulo, se você tem que se deslocar por 1,5h para ir tantas outras para voltar do local onde está seu treinador, eventualmente você vai abandonar o treino porque ninguém tem 3-4 horas disponíveis só para esse deslocamento (considerando que você também se desloca para outros lugares durante o dia).

5. Boa parte dos bons treinadores no primeiro mundo já oferece as opções online e uma parte significativa tem muito mais alunos online do que presenciais. Um aluno presencial não dá mais trabalho do que um online, mas a demanda, para quem já tem um nome, é maior pelo treinamento online. O motivo inclui os ítens acima, mas também o fato de que é infinitamente mais barato: treinar com um bom treinador três vezes por semana pode custar, aqui, mais do que US$1200.00 por mês. Comprar um pacote de treino online para o mesmo período varia entre US$90-200.

Programar não é das coisas mais fáceis. Não basta dominar a literatura sobre periodização e princípios de treinamento: é preciso prática. Eu programo treinos há 10 anos. Sei disso porque recentemente enviei todas as minhas planilhas para um folder comum para uso da minha equipe e as primeiras datavam de 2006. Depois do nosso curso de periodização, tenho oportunidade de revisar os programas de alguns treinadores. Melhoram muito, mas para chegar no ponto em que temos a segurança sobre cada exercício de um programa é preciso bastante tempo de experiência com essa modalidade de treinamento.

Funciona. Se não funcionasse, não estaria crescendo. Não é um mundo fácil: hoje, qualquer atleta que suba no palco (bodybuilding) ou faça um bom total (powerlifting e weightlifting) já começa a oferecer treinamento online.

Nos próximos artigos, vou discutir para quem serve o treinamento e programação online e também como escolher seu treinador. Vamos discutir também como é montado o treino de um aluno à distância e como é monitorado.

Entrevista com Vinicius Barbosa

MAD – Fale um pouco sobre você, Vinicius: onde e quando nasceu, como foi sua infância e como é sua família.

Sou de Goiânia, Goiás. Nasci em 1985, quando as crianças brincavam muito mais nas ruas e computadores e jogos eletrônicos ainda estavam por vir. Joguei muito “golzinho” na rua do prédio em que eu morava, rodava o bairro de bicicleta e patins, adorava artes marciais – pratiquei caratê durante alguns anos – e também fiz natação. Os jogos contra outros prédios do bairro nos campos de terra renderam momentos inesquecíveis! Na escola nunca me furtei de participar das modalidades da educação física obrigatória: futsal, basquete, handebol e vôlei. Foi uma infância movimentada, eu diria.  Do tipo que não se vê mais hoje em dia.

MAD – Quando você era pequeno, o que mais interessava você?

Eu adorava artes marciais. Assistia a todos os filmes do gênero e praticava caratê. Também jogava muito futebol.  A gente chutava bola de meia, tampinha de garrafa, fazia golzinho na rua, campo de terra, e tudo mais que se podia inventar. Mas eu dividia estas atividades com o vídeo game, era a época de ouro do Super Nintendo e depois a primeira geração do Playstation. Eu não sei como conseguíamos fazer tanta coisa naquela época! Em meados da década de 90 ganhei meu primeiro PC. Aquilo me fascinou; passei a dizer que queria me formar e trabalhar com computação. E mais tarde foi justamente o primeiro caminho que segui profissionalmente.

MAD – Escolha profissional: como você escolheu o que estudar e como foi a “primeira carreira”?

No 2º ano do ensino médio entrei no curso técnico de Telecomunicações, já pensando na Engenharia de Computação que pretendia cursar posteriormente. Terminado o curso de Telecom ingressei, via concurso, na Celg (Companhia de Energia Elétrica de Goiás) e ao mesmo tempo iniciei meus estudos em engenharia de computação na Universidade Federal de Goiás. Foram mais de 5 anos de curso superior no qual, embora eu tivesse boas notas e tenha feito grandes amizades, eu nunca me senti integrado naquele mundo. Um indício disto era minha falta de interesse em assuntos de computação e programação fora do currículo escolar. Eu até estudava! Me graduei com média global acima de 8. Razoável, não? Mas aquilo não era minha vocação. Acredito que o relativo sucesso nos estudos vieram da minha educação de base, mas não de um talento para mexer com computação.

MAD – Você fez uma das coisas consideradas mais ousadas na nossa sociedade super-especializada: trocou de profissão. O que motivou você a fazer isso?

Eu tinha meu diploma em engenharia de computação e um emprego estável. Mas não estava feliz! Não exercia uma função que me fosse gratificante, fazia muitas horas-extras, e foi crescendo um sentimento de insatisfação. O momento de tomar uma decisão mais drástica era aquela. Eu sabia que esta decisão significaria dar vários passos para trás até recuperar a estabilidade financeira e profissional que eu já havia conquistado. Mas eu estava com vinte e poucos anos ainda! O momento de arriscar era aquele, eu não poderia me acomodar naquela zona de conforto ilusória. Com o suporte da minha esposa (sem ela nada disto seria possível), iniciei um projeto totalmente novo, tanto pessoalmente quanto para o mercado “fitness”: abri a Arena Performance, um centro de treinamento pautado nos exercícios livres com barra e kettlebells. Este desafio duplo tornou a jornada ainda mais complicada. Primeiramente eu entrava em um campo profissional e em um mercado totalmente estranho, sobre o qual eu conhecia muito pouco. Como se não bastasse, escolhi seguir uma linha de treinamento que o grande público ignorava e ainda desconhece bastante. Quando fundei a Arena Performance não havia ocorrido este “boom” do Crossfit aqui no Brasil, tornando a adesão de novos alunos ainda mais difícil. O que me fez perseverar neste caminho foi uma certa vocação: quando você é chamado a fazer algo que vai além de qualquer recompensa imediata, que de alguma forma você não consegue deixar de fazê-lo. Confesso que já pensei em desistir. Mas não o fiz porque depois que trilhei este caminho, não me imagino fazendo outra coisa.

MAD – Por que força é tão importante?

Ser forte para mim está ligado a todas as decisões e aos rumos que tomaram minha vida desde que conheci o treino de força. Então não significa apenas ter músculos ou levantar mais carga. Eu escolhi ensinar as pessoas a se tornarem mais fortes, mostrar a elas que há mais para se ganhar do que apenas estética. A força está no CERNE de todo ser humano e as pessoas precisam redescobrir isto.

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MAD – Você escreve bastante sobre métodos de treinamento. Qual foi sua motivação para “fazer diferente”?

O treinamento tradicional feito em aparelhos nunca me chamou a atenção. Entrei na academia para me manter ativo. Estava sedentário, já não praticava com regularidade nenhum esporte, e a academia tradicional era a opção mais fácil para retomar algum nível de atividade física. Não satisfeito com aquela rotina nos aparelhos, comecei a pesquisar sobre treinamento físico e descobri outro mundo: o treinamento com pesos livres (levantamento básico, olímpico e kettlebells). Entrei de cabeça neste mundo, estudando e praticando. Aquilo sim fazia sentido! Treinar o corpo de forma integrada, através de movimentos que são o padrão fundamental da nossa motricidade e da nossa fisiologia. Eu olhava ao meu redor e não via absolutamente uma alma fazendo nada daquilo; professores instrutores das academias também totalmente alheios. Eu vi que eu poderia fazer diferente e melhor.

MAD – Arena: como está sendo a experiência de uma proposta alternativa? Quem é seu público? Como você vê o “fitness alternativo” no Brasil?

Tem sido bastante desafiador alavancar um projeto como a Arena. As mídias sociais e a popularização do crossfit têm ajudado bastante. Este ao utilizar muito dos exercícios que também utilizamos e por adotar um visual mais rústico apresenta um modelo de fitness para a sociedade que se parece com a nossa proposta, eliminando muito do estranhamento inicial e rejeição; as mídias sociais garantem uma exposição e divulgação únicas, fundamental no processo de formação e comunicação com o público que está insatisfeito com as academias tradicionais e buscam alternativa. O “fitness alternativo” está crescendo, mas tem sido parasitado pelas academias tradicionais, que abrem espaços específicos para a prática do que chamam de aulas de “funcional” e “cross”. Estes espaços, no entanto, não representam uma quebra de paradigma em como pensar o treinamento, mas simplesmente é uma resposta ao modismo, uma opção a mais entre quinhentas outras modalidades que a academia oferece ao aluno. Resumindo: uma jogada de marketing. Centros de treinamento que verdadeiramente fazem diferente existem, ainda são poucos, mas muito promissores.

MAD – A carreira de atleta de powerlifting: como foi subir no tablado pela primeira vez? E agora, para onde vai?

Escrevi em meu blog à época do primeiro campeonato que participei. Ali está registrada a experiência ainda fresca na memória, com os sentimentos mais aflorados. Transcrevo abaixo:

“…foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Impossível descrever em palavras o que aconteceu. Fiz um agachamento 10kg e um terra 15kg mais pesados que meus máximos de treino, e se eu já relatei aqui como é diferente a dinâmica do treino de força – regularmente testando seus limites, se superando treino após treino, vivendo momentos marcantes e ficando cada vez mais forte a cada ciclo de treinamento – absolutamente NADA se compara ao momento em que você completa uma repetição máxima em um tablado competitivo, em um meet de powerlifing. Não se trata ali de superar adversários, de ganhar ou sair premiado. Não. Trata-se antes de, por alguns segundos, se desligar completamente de toda complexidade mental e emotiva com as quais nos cercamos, e contemplar a essência física de SER humano. Ainda fico meio atônito, me pego muitas vezes com cara de paisagem, olhar longe e coração meio acelerado quando paro para reviver aquelas horas. Como consequência de tudo isso, a motivação e o foco para treinar estão em outro nível, muito mais elevados, e a própria experiência de treino está diferente… Enquanto escrevia este post, me recordei desta entrevista com a Marilia Coutinho, na qual ela fala sobre o levantamento perfeito:

“O levantamento de peso tem uma dimensão técnica. A segunda dimensão é neural. A terceira é mental. Mas existe um quarto passo, quando tudo isso se integra e transcende. Pra mim a execução muito integrada de um levantamento é um ato perfeito. Só vivi isso umas três vezes. Já não sou eu, não é o meu corpo, minha mente. Não tem peso na sua mão. Não tem mão! Uma dissolução tão grande que é como se o movimento fosse a única coisa acontecendo. E, por ser movimento, ele passa. Mas naquela hora não há temporalidade. É um momento de iluminação: você entende a natureza do movimento e, ao entender isso, você entende quem você é.” “

Meu objetivo é alcançar marcas cada vez mais expressivas para em futuro próximo participar de um campeonato mundial. A tarefa é árdua. Conciliar a gestão da academia, com aulas, treinamento, alimentação e família é complicado. Mas vejo essa busca como uma peça fundamental na minha carreira e também pessoalmente.

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MAD – Treinar atletas e treinar pessoas em busca de outros objetivos: é diferente? De que jeito?

Muito diferente. O atleta tem uma motivação intrínseca em ser cada vez melhor, então o desafio se torna escolher os meios e métodos de treinamento mais eficientes para os objetivos dele. Próximo à competição vem aquela expectativa, a prova definitiva se as escolhas foram acertadas ou não. Lidar com o público em geral requer outras habilidades. Creio que a principal delas é a capacidade de manter a adesão do aluno ao programa de treino. Então não basta ser um expert em métodos de treinamento e periodização, é preciso motivar, explicar, incentivar. Existe uma carga emocional e psicológica muito grande quando se trata do público em geral. Este aspecto no atleta é mais específico, está ligada à competição em si. No aluno comum é uma miríade de fatores: familiares, conjugais, financeiros etc. Acrescente a isto a reeducação alimentar que este aluno muito provavelmente deve fazer! De fato não é fácil.

A nova ordem do Programa de Educação Continuada em Força da MAD Powerlifting

Curto e simples: fizemos o que a lógica requer e colocamos o curso sobre Periodização como último na sequência. Agora as explicações.

Os seis primeiros cursos são numerados e chamam-se “Powerlifting (número X)”. Como pode-se observar pela descrição abaixo, esse nome é uma referência ao nome da MAD Powerlifting e não um programa de formação no esporte powerlifting.

A nova estrutura do nosso programa é a seguinte:

 

Número e ordem Sub-título / nome
Powerlifting 1 Fundamentos básicos da força
Powerlifting 2 Segmentação de movimentos e exercícios assessórios
Powerlifting 3 Força e estabilidade: exercícios assessórios com equipamentos (elásticos, correntes, boards, bamboo bar, etc)
Powerlifting 4 Força e hipertrofia: outros exercícios bom barras e anilhas
Powerlifting 5 Pegada
Powerlifting 6 Periodização
Strongman Treinamento com objetos alternativos e Strongman

 

O motivo deste deslocamento do curso de periodização para o final do programa básico é óbvio: é importante conhecer os vários componentes do treinamento de força baseado nas ferramentas dos movimentos básicos para poder planejar, programar e periodizar.

O motivo pelo qual este curso não era o final é histórico: a MAD começou em 2013 com um curso. Depois se transformou em dois, sendo o segundo o de força e hipertrofia. Muito rapidamente ficou claro que os assessórios para os três movimentos básicos requeriam um outro curso, ou melhor dois. Assim, já tínhamos quatro cursos. Esse era o núcleo básico. Com a demanda sobre periodização, ficamos com cinco e o curso de pegada veio em seguida. O núcleo básico ficou sendo o de fundamentos básicos, estabilidade e segmentação, junto com periodização. Força e hipertrofia ficou num fim de semana com periodização. Todos os alunos apontaram a inadequação desta ordem. Como a gente escuta nossos alunos, mudamos.

Primeiros dois cursos do ano de 2015: Powerlifting 1 e 2 na Crossfit Sampa

O ano começou bem: nossos dois primeiros cursos contaram com gente de Goiás, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo.

A maioria, como sempre, de treinadores em espaços “alternativos” (será que ainda podemos usar este termo?): crossfits, studios de treinamento funcional ou personal trainers comprometidos com uma proposta integrativa.

Acredito que cada vez mais os cursos da MAD se mostram como espaços de troca e enriquecimento. Fugimos definitivamente do modelo de transmissão passiva de saber: estamos construindo à medida que ensinamos e aprendemos.

Quase todo mundo encontrou uma pisada nova, uma amplitude diferente ou toda a mecânica de seus levantamentos modificada. Isso é o que importa num curso como esse: as coisas que não se pode aprender lendo ou assistindo material de qualquer tipo de midia.

A gente chama isso de “conhecimento tácito”, em oposição a “conhecimento codificado”. É o corpo-a-corpo, literalmente, com quem tem um conteúdo para ser transmitido. Aquele ajuste fino que se faz com um chutinho, o beliscão nas costas que mostra onde focar a atenção para a melhor adução e depressão de escápula, o olho em cada mudança na velocidade da barra.

Minha preocupação é ao mesmo tempo que cada um de vocês ganhe em conhecimento e performance pessoal, mas também em técnicas de ensino de força para que amanhã possam passar esse saber para frente.

Embarcando na pergunta final do Vassalo, a forma como podemos mudar o mundo é essa: criando correntes e redes de transmissão de saber que não morram nunca.

Tenho muito orgulho de cada um de vocês, sem exceção.

 

Correntes, elásticos, barras instáveis: a estabilidade é a mãe da força – por que fazer o curso de powerlifting nível 3 (equipamentos)

Quando estamos próximos da execução de um movimento voluntário máximo, o sucesso ou fracasso quase sempre são determinados pela eficiência do mesmo. Eficiência nos movimentos tem sido abordada principalmente do ponto de vista da economia energética. No entanto, sabemos que a eficiência de um gesto está relacionada à proporção ótima de ativação das cadeias musculares implicadas, o que, por sua vez, é uma função da coordenação intra-muscular e do equilíbrio. O gesto eficiente é aquele onde atuam de forma ótima, com recrutamento e velocidade ótima, os músculos que devem atuar.

Próximo do esforço voluntário máximo com pesos livres, a capacidade de controlar os fatores intrínsecos de instabilidade é crítica. Recrutar muito mais músculos e de forma pouco coordenada é uma reação de qualquer um não familiarizado com determinada carga ou determinado movimento.

Quando ensinamos o agachamento e um indivíduo o realiza pela primeira vez, o movimento não está automatizado. Todos os movimentos do gesto e todos os comandos necessários para sua boa execução são pensados e isso torna a tarefa ineficiente, lenta e desajeitada.

Mais tarde, quando se aumenta a carga de um gesto conhecido, novamente a falta de familiaridade faz com que haja um recrutamento maior que o necessário de músculos (não necessariamente estabilizadores) e perda de coordenação geral.

Treinos em que se introduz elementos de instabilidade são fundamentais para aumentar a eficiência dos levantamentos. Assim são os treinos com correntes, elásticos e elementos pendulares. Ao caminhar para trás com a barra carregada com correntes ou com pesos pendulares, todos os movimentos se tornam instáveis. O estímulo de estabilização promovido por este tipo de treino resulta em maior eficiência do gesto alvo.

Esta é uma estratégia utilizada no agachamento e no supino.

Correntes e elásticos promovem outro efeito importante na melhoria da eficiência dos levantamentos: ele alteram a curva de tensão ao longo das fases excêntrica e concêntrica. A barra tem uma carga total diferente a cada altura, visto que mais elos da corrente são acrescentados à medida em que ela sobe. Com o elástico, quanto mais esticado, maior a tensão exercida.

Este efeito tende a ter um resultado maior na eficiência da finalização dos movimentos.

Outro equipamento que trabalha um segmento do movimento separado dos demais são os boards. Feitos de tábuas empilhadas produzindo retângulos de espessura variada, os boards permitem alterar a trajetória de finalização do supino. Como diferente dos “dead benches” ou “dead presses” (supino feito dentro da gaiola, com a barra fixada numa altura determinada pelas espadas laterais), os boards permitem que o levantador desça com a barra no próprio corpo coberto pelo equipamento (board), que é sustentado pelo tronco.

No levantamento terra, diferentes arranjos de elásticos e correntes permitem trabalhar cada segmento crítico do levantamento.

Os treinos feitos com equipamentos contribuem não apenas com a maior consciência sobre a segmentação do gesto, melhoria nas fases que se deseja trabalhar como principalmente uma melhora na estabilidade geral do gesto. E, como sempre repito, a estabilidade é a mãe da força.

Para se inscrever no próximo curso de Powerlifting Nível 3 (equipamentos), dia 10 de maio, envie um e-mail para mad.powerlifting@gmail.com

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Ensinando força: o programa pedagógico da MAD Powerlifting

Ontem realizamos mais uma edição do módulo 1 de nossos cursos sobre Powerlifting e os fundamentos da força. A construção do modelo pedagógico que adotamos, distribuição de conteúdos práticos e teóricos e organização das turmas levou cerca de um ano de tentativas e alguns erros. O bom senso acadêmico requer que consideremos sempre que se trata de algo “provisoriamente bom”, ou seja, sempre passível de melhorias. No momento, este “provisoriamente bom” se organiza em quatro níveis de cursos em sequência e três independentes.

 

Nível Conteúdo teórico Conteúdo prático
1 Conceito de força, transferência,  capacidades funcionais, movimento e treinamento Técnicas e fundamentos dos três levantamentos básicos : agachamento, supino e terra
2 Segmentação do gesto, adaptação neural, aprendizado motor, planejamento do treino Exercícios auxiliares dos levantamentos básicos: deads, finalizações, exercícios para lift-off, bom-dia e outros
3 Estabilidade e força, coordenação e equilíbrio Exercícios auxiliares utilizando equipamentos: corrrentes, elásticos, pesos instáveis
4 Teoria geral da adaptação, supercompensação, preparação desportiva, escolas de periodização Produção de uma proposta de periodização para atleta hipotético

 

Número Conteúdo teórico Conteúdo prático
5 Força e hipertrofia Exercícios com barras e anilhas além dos “3 grandes”: os outros agachamentos, desenvolvimento militar, remada curvada, rosca direta, avanço
6 Pegada – anatomia funcional da pegada humana; a pegada e a saúde; pegada e performance Exercícios para melhoria da pegada
7 Stongman e objetos alternativos – a escala de repertórios de gestos quanto à previsibilidade e instabilidade, suas aplicações e importância Introdução ao treinamento baseado em Strongman com objetos alternativos em 6 estações de tipos cinesiológicos

 

Na primeira tabela, o “nível 1” (Powerlifting – fundamentos básicos da força) é um curso onde o foco da aula expositiva é a natureza do movimento, da força, de sua perda e re-apropriação. É importante que fique claro que não se trata de um curso sobre o esporte powerlifting, mas sim um curso sobre os fundamentos da força onde a ferramenta é o repertório de gestos codificados neste esporte para agachar, empurrar e puxar.

A aula prática, que toma 80% do tempo do curso, como em quase todos os cursos da MAD Powerlifting, é uma introdução à execução tecnicamente mais adequada do agachamento, do supino e do levantamento terra. Quando dizemos “mais adequada” é porque existem alguns itens de execução que são válidos de forma universal, porém a individualidade biológica é o que determina como eles podem ser aplicados aos movimentos de cada pessoa.

O curso “nível 2” apresenta os mesmos movimentos de forma mais aprofundada, segmentando-os e discutindo as bases cinesiológicas para tal. Ao apresentar a segmentação do gesto, introduzimos reflexões sobre o planejamento de um treino de força considerando que o aprendizado e treinamento não percorrem um curso linear através de todos os aspectos e fases dos movimentos.

A aula prática do curso nível 2 é constituída de diversos exercícios que podem ser considerados “assessórios” ao powerlifting, mas têm uma importância, validade e aplicabilidade independentes dele. Apresentamos os “deads” (dead squat e dead bench), que são os agachamentos e supinos onde a fase concêntrica precede a excêntrica, fazendo com que se transformem num desafio de acelerar uma carga a partir de velocidade zero (peso “morto”); introduzimos outros agachamentos que não o tradicional pelas costas; apresentamos vários exercícios para a finalização dos movimentos e, ao contrário, para seu início (“lift-off”).

O curso “nível 3” (Powerlifting – equipamentos para exercícios assessoórios) tem como foco da aula expositiva o conceito e importância da estabilidade e eficiência de um movimento. A partir deste conceito, apresentamos os vários equipamentos e exercícios que são trabalhados na aula prática: correntes, elásticos, pesos em movimento pendular alterando o posicionamento da barra, entre outros.

Finalmente, o curso “nível 4” (Periodização) é um curso que foge um pouco ao padrão dos anteriores, onde a parte prática não envolve necessariamente a execução de nada físico. Nele, a aula expositiva, que representa uma proporção um pouco maior do tempo total do curso, apresenta os conceitos de adaptação e supercompensação, entre outros princípios do treinamento, e os diversos modelos de periodização. A tarefa prática consiste em elaborar uma proposta de mesociclo competitivo para um atleta hipotético, com um calendário hipotético. A classe toda discute as propostas de cada aluno depois de executada a tarefa.

O curso número 5, “força e hipertrofia”, discute esta relação tão mal entendida no mundo do treinamento. Na aula prática, apresentamos os diversos exercícios com barras e anilhas que podem e devem ser utilizados regularmente num programa de treinamento preocupado com a hipertrofia muscular.

O curso número 6, “pegada”, apresenta, pela primeira vez no Brasil, este tema tão fundacional na saúde e na performance como um programa de aprendizado. Na aula expositiva, apresentamos dados evolutivos, anatômicos e cinesiológicos sobre a pegada humana e discutimos seu papel na saúde e na doença, na performance e na perda da performance. A aula prática consiste de exercícios para pegada, com foco no tipo de transferência para gestos específicos que eles permitem.

O curso número 7, “Strongman e treinamento com objetos alternativos”, mais uma vez não é um curso sobre o esporte. O foco da aula expositiva é explorar a importância dos movimentos instáveis e imprevisíveis no condicionamento e preparação esportiva. Apresentamos, assim, o treinamento com objetos alternativos dentro de uma sequência lógica de integração:

Components de força Planos Lateralidade Componentes do movimento humano Capacidades funcionais Previsibilidade e codificação do gesto
Powerlifting Estática

De cessão

Ao longo do plano sagital Não Agachar

Puxar

empurrar

Força (e potência) Não
Levantamento olímpico Estática e dinâmica Ao longo do plano sagital Não Agachar

Puxar

Empurrar

deslocar

Potência (e força) Não
Girevoy / KB training Estática

Dinâmica

De cessão

Ao longo dos planos sagital, frontal e transverso Sim Agachar

Puxar

Empurrar

Deslocar

rotacionar

Potência (e força)

Força de resistência

Não
Strongman Estática

Dinâmica

De cessão

Ao longo dos planos sagital, frontal e transverso sim Agachar

Puxar

Empurrar

Deslocar

Rotacionar

arrastar

Potência (e força)

Força de resistência

endurance

sim

 

Os programas da MAD Powerlifting estão sempre se ampliando e se aprimorando. Nosso objetivo é oferecer ao público de treinadores, atletas e profissionais da saúde um conteúdo inédito, com uma abordagem integrada baseada na nossa filosofia quanto à corporalidade, à motricidade humana e a re-apropriação de capacidades inatas perdidas num processo de “deseducação” e alienação que nossa sociedade impõe a todos.

Nosso próximo desafio, já em curso, são os programas oferecidos diretamente ao público consumidor final destes produtos.

Treino de powerlifting para professores de academia

A planilha abaixo é uma alternativa de treino relativamente rápido para professores de academia. Foi elaborada para meus alunos da Runner, cuja disponibilidade de tempo para treino é em torno de 1-1,5h por dia.

Aqui vocês encontram 7 semanas de treino: comecem pela primeira – NÃO PULEM ETAPAS. O treino foi elaborado segundo uma periodização que contém elementos de conjugação e é ondulatória e sequencial. Assim, deve ser feita na ordem.

Qualquer dúvida, entrem em contato.

Baixe o arquivo aqui

Por que fazer os cursos da MAD Powerlifting

Você – educador físico, professor, treinador de modalidades diversas, fisioterapeuta, estudante – está sob o bombardeio permanente de posters digitais de cursos dos mais diversos assuntos, todos lindos, coloridos e prometendo um upgrade sensacional na sua carreira e conhecimento.

Como escolher?

A gente sabe que isso não é simples. Você não conhece boa parte dos professores destes cursos.

Alguns cursos têm nomes sensacionais, os temas são tudo que você queria saber na vida. Vou contar um segredo para vocês: os nomes da maioria dos cursos são criados para isso. Existem pesquisas, surveys de comportamentos e atitudes, que detectam essas coisas. Aí é só inventar: “Treinamento funcional sub-aquático com plataforma instável”. “Cross-training meta-funcional metabólico com kettlebells”. “Treinamento cross-funcional para qualidade de vida”.

Pronto.

Tirando a piada, o título é o açúcar para atrair a multidão de gente confusa e perdida num mar de informação desorganizada, sem hierarquia e sem padrões meritocráticos.

Vamos traduzir isso: em qualquer campo técnico, o valor que deve prevalecer para o julgamento é o MÉRITO. O mérito, em campos técnicos, é medido através de indicadores. Em geral mede-se isso por uma ponderação entre o background acadêmico, a experiência de ensino e prática, e a excelência em performance.

Portanto sim, é importante você saber qual a formação de quem está lhe ensinando, onde e o que aprenderam, se produziram algo publicado, se têm experiência de ensino e se são bons no que fazem.

Resolvendo o problema de como julgar o curso no quesito professores (que às vezes pode importar mais que o tema), vamos aos temas.

Você realmente acha que um curso de Pilates sub-aquático cross-funcional vai dar um “up” na sua carreira? Sério mesmo?

Não vai.

O “up” na sua carreira virá de duas coisas: a primeira é você ganhar capacitação em atividades e saberes que você aplica no seu dia-a-dia. Agora entro com os exemplos dos nossos cursos: você está competindo com mais 43 candidatos a uma vaga de treinador de força e condicionamento. Entre você, que sabe corretamente as técnicas de agachamento, supino, levantamento terra, stiff e outros movimentos complexos, multi-articulares e funcionais, e o outro colega que sabe mal e porcamente executar três deles (de maneira errada, pois quase todos os nossos alunos chegam com erros importantes), qual estará em vantagem?

Você não tem que fazer um curso de powerlifting, natação ou kettlebell training para ser um powerlifter, um nadador ou um girevik. Você precisa fazer estes cursos porque são a base do treinamento. No caso do powerlifting, dos levantamentos de potência (levantamento de peso olímpico ou integrado) e dos kettlebells, porque simplesmente não existe treinamento de NADA sem estes movimentos.

Claro que é possível que você se depare com um empregador medíocre e mal formado que dará importância à “certificação” em Treinamento Cross-funcional em pliometria aplicada. Isso existe. E muito. Só que cada um destes modismos tem uma obsolescência imensa: em pouco tempo ninguém mais sabe o que era.

Já o que nós ensinamos, ensina-se desde sempre, pouco e você precisará deste saber para o resto da sua vida.

No próximo capítulo, falaremos por que o powerlifting é uma ferramenta de re-apropriação de memória motora perdida.

Marília

Corrida e treinamento de força

Hoje vou responder as perguntas que o Daniel fez sobre corrida de longa distância e treinamento de força. Palavras dele:

1) Num dos textos você dá a entender que não seria bom para o emagrecimento o treino aeróbico na esteira após a musculação. Entendi certo? Se é isso mesmo como conciliar emagrecimento, treino de força e as minhas divinas corridas longas? Quero emagrecer mas não quero deixar de correr, pois minhas corridas são experiências místicas.

2) Crossfit e maratona combinam? Dá para encaixar? O ambiente é mais amigável para um “cérebro com perninhas” do que a academia tradicional?

Parte das suas perguntas cai numa velha polêmica sobre treinamento concorrente: de fato o treinamento de endurance de alta intensidade concorre e é detrimental ao treinamento de força (de alguma intensidade). O que isso nos diz é o que o bom senso também diria: é preciso fazer escolhas. Se o seu barato são as corridas de longa distância, então o treinamento de força é um suporte para elas (e para sua saúde). Vamos encará-lo assim, portanto.

O objetivo do corredor de longa distância é correr melhor, mais rápido, com mais controle sobre o rítmo e sem lesões. Otimizar estes objetivos não combina muito com foco em hipertrofia muscular ou força máxima. O volume muscular ótimo de um corredor de longa distância será aquele que maximize sua saúde articular (já que a musculatura constitui estrutura estabilizadora secundária, ao lado de tendões e ligamentos) e sua força de resistência. Será o menor volume possível que atenda a estes requisitos. Por que menor? Pelo peso. Quanto mais leve o corredor, mais eficiente será sua corrida.

O objetivo de se treinar os levantamentos básicos, por exemplo, não é produzir um grande agachador. Grandes agachadores têm uma grande massa muscular e são pesados. No entanto, o treinamento de força e a eficiência nos movimentos fundamentais da locomoção humana (agachar, puxar, empurrar, rotacionar, etc) é básica para qualquer modalidade, corrida de longa distância inclusive.

O que o corredor quer é uma musculatura forte, resistente e de máxima eficiência (maior recrutamento por menor volume).

Minha recomendação de que não se pratique corrida, propriamente dita, após um treino com pesos deriva do conhecimento de que esta combinação é contraproducente. Ocorre um efeito de concorrência e os estímulos dados durante o treinamento de força são prejudicados pela corrida. Atenção: não me refiro a um trotezinho leve de meia hora depois do treino. Essa é uma atividade anti-inflamatória, e não de treinamento cardio-vascular ou de endurance. É o que eu carinhosamente chamo de “lavar meus músculos”.

Então, como deve treinar um corredor de longa distância? Com uma boa periodização e divisão semanal de treinos. É só não fazer um em seguida do outro. Podem ser feitos no mesmo dia, desde que se dê um tempo adequado para recuperação entre um e outro.

Quanto ao emagrecimento, mais uma vez, não se preocupe: um bom treinamento de força promove emagrecimento com qualidade. A recuperação do stress do treinamento de força é complexa e envolve um aumento da atividade oxidativa de gorduras por um período prolongado. Como o corredor sábio fará ambas as atividades – seu treino periodizado e devidamente ondulado de corrida e sua preparação esportiva com treinamento de força – terá os dois benefícios: o do gasto calórico agudo da corrida e o crônico da força.

Sim, Crossfit e corrida combinam maravilhosamente bem: num ginásio Crossfit, o atleta terá todos os estímulos de “força e condicionamento” combinados em blocos semanais. Para o corredor de longa distância, é uma abordagem muito adequada.

Finalmente, sim, o ambiente da maioria das crossfits (todas que conheço) é muito mais amigável aos “cérebros com perninhas”, indivíduos de um nível educacional mais alto, com senso crítico agudo e inexoravelmente reflexivos quanto a toda a sua experiência de vida.

Marilia

Feliz 2014 – um ano de muita força, harmonia e integração para você

A MAD Powerlifting nasceu em 2013. Assim, 2013 foi o melhor ano de sua história, por definição. Agora em sério, não poderíamos estar mais felizes com o balanço deste ano e mais otimistas com 2014. Em cinco cursos, três seminários, muitos artigos e vários programas e consultorias, a MAD enfrentou desafios, criou uma metodologia de ensino para os fundamentos básicos da força e do movimento humano, ensinou dezenas de pessoas a fazer força com mais técnica e consciência, disseminou uma filosofia sobre a força como base da integração corporal e teve o privilégio de acompanhar o encontro encantado de seus alunos com a própria força.

“Força” apareceu quatro vezes no parágrafo acima e foi deliberado: nosso negócio é a Força.

Vários de nossos alunos se tornaram atletas de powerlifting. Outros tantos continuaram sendo atletas de suas modalidades – esperamos que cada vez mais fortes e bem sucedidos.

Ao ensinar a Força, aprendemos tanto quanto ensinamos. Se 2013 pudesse ter um nome, seria Aprendizado. Aprendemos a ensinar, aprendemos a aprender, aprendemos a ser mais fortes e aprendemos a ajudar todo mundo a se encontrar com sua Força.

Fizemos atletas, fizemos amigos e fizemos novos parceiros. Acreditamos que são laços fortes, como é a natureza do que fazemos. Crossfits, Tribo Equipamentos e Powerworks vieram para ficar. Caminharemos juntos de cara para um ano cheio de novos desafios.

A todos vocês que tornaram possível a realização deste grande sonho e projeto, um Feliz 2014 cheio de Força e Integração.

 

Marilia – André – Diego = MAD