Reinventando a roda: quando a falsa autoridade vem de pesquisa redundante

O problema com o “publish or perish” é que o sujeito TEM que publicar, nem que seja lixo. Nem que seja para demonstrar que numa amostra standardizada de aranhas com n=150, em triplicata, 100% fica surda se as 8 pernas forem arrancadas.

Já vi de tudo nesse mundão de meudeus das universidades brasileiras: professor titular medindo atividade respiratória de diferentes espécies de copépodos, com zero acréscimo em conhecimento científico universal, às custas de grana da FAPESP para viajar para lugares paradisíacos para coletar outras espécies de copépodos que respiravam da mesma maneira.

Agora temos uma demonstração quantitativa sobre a alteração de movimento no levantamento terra causada pelo uso de strap.

Putz… vai mudar a vida de todo treinador de força. Vai todo mundo sair correndo e mudar o planejamento competitivo dos seus atletas. O Hugo vai fazer terapia 4 vezes por semana. Por uma semana, pairará a dúvida sobre como proceder nos esportes de força.

Só que não.

Todo mundo já sabe isso há uns 60 anos. Desde que strap era pedaço de faixa de judô arrebentada.

Sério mesmo: publicar um artigo sobre isso tem lá sua validade. mas não torna ninguém expert em esporte. Só dá um “up” no Lattes do neguinho.

Vamos ver os próximos: vamos provar que atividade física regular melhora a condição de mulhers pós-menupausa com osteoporose? Ou que inativos podem adotar diferentes protocolos que dá na mesma? Ah, tudo bem: escolhe aí um desses tópicos que qualquer treinador de força já sabe há meio século. Pelo menos.

Para indivíduos inativos, quase todo protocolo funciona

Sério mesmo, tenho toda a simpatia pelos colegas que estão no sistema público de ensino superior e pesquisa, precisam apresentar produção constante para complementar o salário, para ter um lugar ao sol ou simplesmente para existir no sistema e se desesperam para publicar qualquer coisa. Um dia essa exigência fez sentido mas, como tanta coisa, acabou sendo pervertida.

O problema, como quase sempre, é a transparência. Não precisa vir a público reclamar do sistema, dizer “olha a porcaria que eu fui obrigado a publicar” – nada disso. Deixa quieto: a gente entende.

Agora, ter uma coleção de obviedades publicadas com inativo, mulheres peri-menopausa, aluno, rato, gato, bactéria e bater no peito se dizendo a última trakinas do pacotinho nas ciências do esporte não dá.

Da hora entender como atividade física funciona com inativos. Na verdade, talvez socialmente até mais relevante. Mas não pode em hipótese alguma generalizar os resultados para atleta. A única coisa em comum entre os dois grupos é pertencer à mesma espécie (e olhe lá, hein).

O que vale para inativo raramente vale para atleta ou indivíduo treinado. Ter uma coleção de publicações com essa população não dá a ninguém autoridade para falar grosso como cientista do esporte.

Sabe quem é a vítima desse comportamento? O recém-formado, o treinador sem formação avançada, ou o colega tetando se encontrar no mar de informação científica. Ele não tem obrigação de entender como funciona o sistema acadêmico e cai como um pato nas estorinhas para boi dormir que os gurus da falsa ciência do esporte contam.

Feio isso, hein.

Vou contar um segredinho para vocês: eu gasto um tempinho de cada curso com o capítulo sobre o que NÃO se sabe naquele tema. Sabem por que? Primeiro, porque nosso aluno trabalha no mundo real e é mais importante dar a ele instrumentos para se virar nas situações em que a ciência não resolve o problema dele. Segundo, porque sinceridade não constrói guru, mas não enganar o próximo ajuda a dormir melhor.

Precisamos falar sobre distância e tecnologia: treinamento e programação online – parte 1

Parte 1: por que a programação e treinamento online são uma opção cada vez mais atraente

Eu moro nos Estados Unidos. Hugo Quinteiro, meu parceiro de trabalho, treino e competição, no Brasil. Os alunos e atletas que nos contratam para treiná-los estão por toda parte: Venezuela, Austrália e pelo menos 4 estados do Brasil.

A realidade é que uma soma de fatores colocou a opção do treinamento e programação de treino online como a preferencial para uma parte significativa e crescente dos usuários deste serviço no primeiro mundo. Alguns destes fatores são fáceis de discutir e bons. Vamos a eles:

1.   A tecnologia da informação e os aplicativos para celulares e computadores permite um grau de interação cada vez maior entre treinador e atleta e aluno. Podemos observar o treino de um aluno em tempo real ou podemos repetir um vídeo dezenas de vezes até identificar todos os problemas no padrão de movimento. Podemos conversar – com voz e vídeo ou por texto – diáriamente com eles. Perto de uma competição, isso se torna crítico.

2.   O treino online programado requer a compra de um pacote e uma planilha periodizada. A verdade é que talvez essa seja uma das poucas oportunidades em que o aluno terá esse grau de cuidado com o seu treino. A imensa, esmagadora maioria dos personal trainers NÃO programa detalhadamente o treino de seus alunos. Isso não é necessariamente catastrófico, mas como Benjamin Franklin dizia, “fracassar ao planejar é o mesmo que planejar o fracasso”.

3.   Contratar um personal trainer ficou cada vez mais barato. Na academia que eu frequento, por US$80.00 a mais por mês, há uma promoção de disponibilidade ilimitada de um treinador pessoal. Isso pode fazer a hora do treinador cair para US$4.00. A maioria deles não tem formação acadêmica ou experiência em treinamento para oferecer um trabalho de qualidade. Sinceramente, por essa remuneração é impossível exigir qualquer coisa.

4.   O resultado disso é que os bons treinadores não estão necessariamente próximos a você. Por mais que seu treino seja essencial, ele também é obrigatoriamente consistente para funcionar, ou seja: você deve treinar de 3 a 5 vezes na semana. Se o seu treinador está a 3 horas de distância de você, de duas uma: ou você abdica de estudar ou trabalhar, ou muda para a cidade dele. Não é preciso ir tão longe: em São Paulo, se você tem que se deslocar por 1,5h para ir tantas outras para voltar do local onde está seu treinador, eventualmente você vai abandonar o treino porque ninguém tem 3-4 horas disponíveis só para esse deslocamento (considerando que você também se desloca para outros lugares durante o dia).

5. Boa parte dos bons treinadores no primeiro mundo já oferece as opções online e uma parte significativa tem muito mais alunos online do que presenciais. Um aluno presencial não dá mais trabalho do que um online, mas a demanda, para quem já tem um nome, é maior pelo treinamento online. O motivo inclui os ítens acima, mas também o fato de que é infinitamente mais barato: treinar com um bom treinador três vezes por semana pode custar, aqui, mais do que US$1200.00 por mês. Comprar um pacote de treino online para o mesmo período varia entre US$90-200.

Programar não é das coisas mais fáceis. Não basta dominar a literatura sobre periodização e princípios de treinamento: é preciso prática. Eu programo treinos há 10 anos. Sei disso porque recentemente enviei todas as minhas planilhas para um folder comum para uso da minha equipe e as primeiras datavam de 2006. Depois do nosso curso de periodização, tenho oportunidade de revisar os programas de alguns treinadores. Melhoram muito, mas para chegar no ponto em que temos a segurança sobre cada exercício de um programa é preciso bastante tempo de experiência com essa modalidade de treinamento.

Funciona. Se não funcionasse, não estaria crescendo. Não é um mundo fácil: hoje, qualquer atleta que suba no palco (bodybuilding) ou faça um bom total (powerlifting e weightlifting) já começa a oferecer treinamento online.

Nos próximos artigos, vou discutir para quem serve o treinamento e programação online e também como escolher seu treinador. Vamos discutir também como é montado o treino de um aluno à distância e como é monitorado.

O barato da certificação

Se você fizer os 6 níveis da MAD, você tem uma certificação em “powerlifting”? Não. Sabe por que? Porque é ilegal. Também é ilegal ter certificação em Pilates: a família do Pilates ganhou um processo há alguns anos que impede que isso aconteça. Você ganha um certificado de que fez um curso sobre força e condicionamento – um deles, dos vários que a gente oferece.

Parece que estamos dando um tiro no pé, já que todo mundo anda atrás de certificações. No entanto, apesar de admitirmos que aprendemos muito com a galera “esperta” em marketing, nós, da MAD, estamos pendendo para a linha do “marketing realista” (que tem essa inovação da honestidade).

A gente dá um certificado para vocês. Igualzinho a quem oferece “certificação”. Um dia, quando o curso se tornar uma especialização registrada no MEC-CAPES, você vai receber um DIPLOMA com carimbo do MEC. Com a mesma validade dos da Marilia Coutinho, Ph.D. ou doHugo Quinteiro – Powerlifter, de mestrado e doutorado.

A gente é contra certificações? Não, a gente não é. Mas na linha do marketing realista, a gente é obrigado a dizer para vocês que seu aluno (cliente) realmente não liga ou não sabe avaliar suas certificações. Isso é verdade no Brasil e nos Estados Unidos.

Aqui, nos Estados Unidos, para contratação em determinados cargos de coach, há uma lista de menos de meia dúzia de certificações que são consideradas importantes (veja entre os artigos da compilação abaixo). Numa boa, uma certificação supimpa em powerlifting não ajuda na briga a tapa por uma vaga de coach assistente num departamento esportivo de uma grande universidade. Personal trainer? Pfff…. todo mundo sabe que o que conta é o seu sucesso anterior com outros alunos (clientes). Seu aluno não sabe o que significam as siglas.

Então, colega, faça o curso da MAD pela QUALIFICAÇÃO que a gente oferece, e não pela CERTIFICAÇÃO. Quanto a essa, a gente promete que o certificado é bonitinho, em papel couche e que as pessoas que realmente manjam de treinamento no Brasil vão entender. Mas só eles. Seu aluno, não: para ele, é só mais um diploma na parede.

Strength and conditioning certifications: why and which matter, for what

Entrevista com Hugo Quinteiro

MAD – Hugo, conte um pouco sobre você: onde e quando você nasceu, como é sua família e como foi sua infância. Que tipo de atividade você mais curtia quando pequeno?

Eu nasci dia 14 de dezembro de 1982 com 52cm e 4.360g em São Paulo num final de primavera escaldante seguido por um verão mais quente ainda (conforme me contaram). Sou filho de uma mineira descendente de espanhóis com um português o que me faz 100% ibérico. Sou filho único e o conceito de família sempre foi algo bem restrito na minha vida: basicamente faziam parte do meu convívio meus pais e avós além de uma “tia” e seu filho (as aspas é porque ela é prima da minha mãe).

O fato deu ser muito grande e pesado desde que nasci obrigou a eu aprender logo cedo a ter que andar e não poder contar com colo quando novo. Minha mãe trabalhava em uma creche e eu a acompanhava e lembro de estar com sono voltando pra casa e minha mãe dizer: você precisa andar porque eu não tenho força pra te carregar no colo. Mas ela também me dava preciosos estímulos: sempre me levava a parquinhos e me deixava escalar, subir em coisas, saltar, brincar etc. Lembro de uma vez que fomos com uns primos no parquinho e eles eram lerdos, desajeitados (um até foi “atropelado” por uma balança) e eu olhava e pensava: que crianças estranhas.

Minha casa também tinha um grande quintal (era grande pra mim na época) e eu sempre brincava sozinho, plantava coisas num espaço com terra, olhava estrelas, brincava com os vaga-lumes, arrumava alguma galinha ou galo de estimação e brincava com o cachorro que nos acompanhou até eu fazer 17 anos. Na infância (até os cinco anos mais ou menos), eu brincava muito sozinho por dois motivos: o primeiro era porque eu era filho único, o segundo é porque eu era MUITO mais forte que crianças da minha idade e isso sempre causava acidentes em que a outra criança trombava em mim, por exemplo, caia no chão e se machucava inteira e eu ficava em pé, olhando sem entender. Isso me fez ter mais contato com crianças mais velhas, fortes e que “aguentavam” brincar comigo. Também brinquei muito na rua como os outros meninos por volta dos sete anos e isso durou até os nove quando comecei a fazer judô e isso me ensinou um conceito de disciplina e responsabilidade com o esporte onde eu, voluntariamente, abri mão de brincar com outros meninos e passei a treinar. Sobre atividade preferida, acho que não tinha uma pois gostava de fazer e inventar um monte de coisas. Entre elas, aprender xadrez aos cinco anos depois de encher as paciências do meu pai pedindo pra ele me ensinar.

 

MAD – Como foi sua Educação Física escolar? Se você pudesse hoje conversar com seus professores daquele tempo, o que você diria?

Foi medíocre. Porém, creio que a atividade  que o profissional de educação física pode fazer hoje dentro de uma escola e pelos recursos que ele conta, eu diria que recebi o mínimo dos estímulos necessários (o que já é raro hoje alguém receber). Eu tenho alguns dos meus professores de colégio no facebook e acho que eles até lerão isso então, digo a eles: vocês são heróis desconhecidos. Infelizmente sequer deixavam vocês dar uma nota numérica pra gente (utilizavam aprovado em boa parte do ensino fundamental) e um sistema de avaliação minimamente justo. E vocês, com uma bola, uma rede e uma quadra do tamanho de um apartamento, conseguiam dar vivência motora as crianças. Parabéns!

 

MAD – Antes da faculdade, você praticou algum esporte? Como foi?

Eu fui atleta de judô dos 9 anos de idade até os 15 de maneira ininterrupta. Depois parei um ano, voltei outro ano, parei de novo, só voltei aos 22 anos e larguei de vez quando entrei na faculdade. Foi minha primeira experiência competitiva e de sonhar em seguir em frente no esporte e me tornar um atleta de elite. Porém, era um momento de grandes dificuldades financeiras na família e não tínhamos condições de viajar pra competir ou até mesmo garantir os gastos de uma criança em formação com uma carreira esportiva. Porém, os ensinamentos de disciplina, respeito ao adversário, lidar com uma ambiente competitivo, treinar de maneira séria são coisas que ficaram marcadas na minha vida pra sempre.

MAD – Como foi a decisão de cursar Educação Física?

Ela teve a ver com dois planos: profissional e pessoal

Profissional porque eu não me sentia feliz sendo corretor de seguros (acreditem, sou formado em um curso técnico e tenho carteirinha de corretor). Não imaginava minha vida dentro de um escritório lidando com papel e deixando o sedentarismo tomar conta da minha vida. Então esse era um ponto que eu tinha vontade de mudar e não me sentia feliz.

Pessoal porque eu acabei voltando para o judô (entendam voltar, pra mim, significa voltar a treinar E competir). Com tantos anos sedentários, percebi que além de uma péssima resistência anaeróbia eu tinha me tornado algo que nunca fui comparado a pessoas da mesma idade e peso: fraco. Por isso, resolvi procurar a musculação e encontrei uma academia tradicional perto de casa onde acabei treinando por oito anos. Ter conhecido o dono me fez acreditar que era possível mudar de área e fazer algo que eu realmente gostava: cursar educação física e admitir isso a mim mesmo (comecei o curso tarde, aos 25 anos).

 

MAD – Carreira acadêmica: conte sobre sua experiência com o mestrado e suas conclusões sobre a carreira.

Eu decidi fazer mestrado em 2008 quando conheci o Prof. Ms. Leandro Afonso na disciplina de fisiologia do exercício. Era um momento de franca expansão do ensino superior no Brasil e a possibilidade de criar uma pergunta científica, selecionar métodos para respondê-la e, com isso, aumentar o próprio conhecimento e de toda a comunidade era algo que me fascinava como o menino que era na infância brincando no quintal, criando coisas e desmontando os aparelhos eletrônicos que meus pais me davam antes de jogar fora. Com isso, decidi não parar de estudar até completar o mestrado. A ideia original seria não parar até o doutorado, mas a atual política do Brasil transforma o professor doutor num “elefante branco”.

No mestrado, aprendi o que é fazer ciência como carreira profissional. Isso muda o conceito de uma ciência romântica movida a ideias realmente originais e que são voltadas a mudar pra melhor a vida das pessoas. A ciência tem seu sistema próprio de organização e esse sistema obriga o pesquisador a ser um burocrata que lida com papéis, bolsas, financiamentos, agências de fomentos de pesquisa, prazos e com uma brutal pressão por publicações. Ou seja, a ciência existe para resolver os problemas dela e dos seus envolvidos, não os problemas do mundo.

Minhas conclusões atuais sobre a ciência são: num pais subdesenvolvido com graves problemas políticos e administrativos, não se cria algo realmente relevante a ponto de mudar pra melhor a vida das pessoas que sofrem com doenças crônicas não-transmissiveis (que foi minha área de pesquisa). O que se faz em ciência no Brasil hoje sobre esse tema é gerenciar o sofrimento do paciente para prolongar sua vida doente (o foco não está na cura). E, pelo que vi, mundialmente também não está.

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MAD – “Construindo a ponte entre ciência e prática”: por que é tão difícil no treinamento esportivo?

Porque as perguntas realmente pertinentes que deveriam ser levadas a um laboratório e estudada não são. Isso acontece por uma série de motivos e um deles é a falta de dinheiro. Um outro, creio que até mais importante, é a falta de duas carreiras no país: treinador desportivo e cientista do esporte. O primeiro, existe basicamente dentro do futebol e de forma caricata: ex-atleta, semi-analfabeto, sem formação científica que reproduz um modelo de treino baseado naquilo que viveu (que foi baseado naquilo que outra pessoa viveu, ou seja, 100% empírico). No outro lado, a falta de centros olímpicos de detecção e seleção de talentos não gera a demanda pela formação de cientistas do esporte. Sem demanda, não tem carreira porque ninguém estuda um doutorado numa área que não existe aplicação só pra ser diferente. Doutores precisam pagar contas como qualquer pessoa e, no fim, o mercado não gerando demanda não gera dinheiro envolvido também. Um terceiro é a falta de equipamentos para estudar fenômenos. Um exemplo disso é que hoje, quem conseguir responder como ocorre o mecanismo molecular de uma supercompensação ou um overtraining ganha certamente o Nobel. Só que não existem ferramentas para mensurar variáveis ou expor voluntários de maneira segura ao fenômeno a ser estudado. Um quarto motivo: o profissional que faz ciência não tem experiência prática no treinamento e, muitas vezes, nem humildade para aprender ou perguntar o que é relevante para um treinador saber. Como disse acima, ciência se importa com os problemas dela, não com os do mundo, lembram?

 

MAD – Qual sua opinião sobre a regulamentação profissional? Considerando que há países onde não há requisito legal algum e no Brasil o requisito é rigoroso e regulamentado, o que é melhor para a sociedade?

As vezes penso que essa pergunta deveria vir acompanhada de uma pergunta prévia bem respondida: qual o papel da educação física na sociedade? Hoje, creio que o maior problema da educação física é a falta de identidade. Na escola, somos a disciplina “a parte” que não tem prova, não existe reprovação nem obrigatoriedade de frequência e aula teórica é um sacrilégio. Na área da saúde, carregamos o estereótipo de ignorantes que adoram fazer bagunça e tem a obrigação de deixar os alunos felizes ao final da aula. Enfim, não temos respeito profissional nem identidade.

Conhecendo o default das autarquias brasileiras, o mais barato e econômico para todos seria não existir nenhum conselho profissional. Porém, a falta de aplicação de leis e o costume da população em ter um estado-babá que “cuida” da população obriga, pelo menos a médio prazo, a existência de um conselho que fiscalize minimamente a atuação profissional.

Resumindo minha opinião: o melhor para sociedade deveria ser a não regulamentação porém com duríssimas leis que efetivamente punam o profissional que cometesse uma irregularidade. Isso geraria um menor gasto publico-privado e uma busca de conhecimento pelo profissional que resolvesse atuar na profissão. Porém, com um mercado que não sabe sequer o que é qualidade em uma profissão sem identidade como a educação física, somado a um judiciário ineficiente e um estado que não pune, faz com que a presença de um conselho que fiscalize tudo isso seja um mal necessário que onera todo o sistema mas gera alguma regulamentação.

 

MAD – Como você se define como treinador? O que é ser treinador para você? 

Ser treinador pra mim é como um taxista: ele conhece caminhos, conhece atalhos e sabe levar o passageiro onde ele precisa no menor tempo possível. Pra isso, você deve saber dirigir (habilitação profissional), ter noções de como é a mecânica do carro e conhecer o caminho (aliar conhecimento científico com vivência), conhecer atalhos (feeling pessoal e improvisação) e, principalmente, entender que o passageiro precisa chegar no prazo (periodização).  Por isso, me defino como um treinador em início de carreira porque ainda estou num processo de criação do feeling pessoal, da maneira de improvisar e de adquirir uma longa vivência no esporte.

 

MAD – Musculação: o que é isso para você? Se você tivesse que transformar a as salas de musculação no seu ideal, como faria?

Eu escrevi um texto sobre o que é a sala de musculação pra mim comparando com a matrix (http://bases-fisiologicas.blogspot.com.br/2015/03/matrix.html). A musculação tradicional vende hoje o suprassumo da alienação corporal em forma de atividade física onde a alienação corporal do aluno por movimentos perdidos ao longo de um dia inteiro sentado num escritório lidando com máquinas é incentivado na academia onde ele chega e tem mais máquinas pra empurrar. Ao meu ver, isso é literalmente a revolução das máquinas acontecendo e as pessoas não estão se dando conta.

Se eu tivesse que transformar uma sala de musculação, eu começaria por onde eu acredito que toda a sociedade deva se transformar: através da EDUCAÇÃO. Educaria e investiria no profissional que atuará nessa sala. Com conhecimento, ele ensina o aluno e se vê livre das máquinas pois tem recursos intelectuais para lidar com o movimento livre. Isso acabaria com os “não pode agachar”, “supino com pés pra cima pra não lesionar a lombar” e “terra é perigoso”. Isso acontece porque os profissionais tem MEDO do desconhecido porque nunca viveram isso. Não viveram porque não tiveram na sua formação (não canso de dizer que eu tive UMA aula prática e uma teórica de musculação na graduação inteira). Muitos profissionais atuam no mercado apenas com essa informação e mais algumas horinhas lendo literatura não qualificada (porque também não aprendeu a buscar literatura científica de qualidade).

 

MAD – Powerlifting: como entrou e onde ele fica na sua vida?

O powerlifting entrou na minha vida sem querer no meio do mestrado. Já gostava de musculação, conheci a Marília Coutinho e resolvi participar de um campeonato dois meses antes de defender meu mestrado. A surpresa de ter vencido e a possibilidade de voltar a ser um atleta de elite (coisa que abri mão no judô no passado) me reacendeu a chama pelo esporte.

Responder onde ele fica na minha vida é fácil: esse esporte não fez concessões a mim. Ele me deu TUDO que eu desejei até agora por isso eu faço tudo que for necessário pra ele. Desde treinar o que for preciso treinar, arcar com todos os custos de viagem, alimentação e outros custos da minha vida de atleta até organizar campeonatos exclusivamente para dar possibilidade de outros atletas viverem o que eu vivo.

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MAD – Powerlifting é um esporte “chato” para muitos que assistem sem entender. Você acha que deve haver um esforço de popularização?

Na verdade, até eu acho chato de assistir (risos). A emoção desse esporte é muito individual: cada atleta caminha até a barra carregada por um peso escolhido por ele para executar um único movimento que terá uma relação de transcendência e experiência totalmente única mas, pra quem está de fora, é só um cara agachando seguido de outro cara agachando e depois a mesma coisa no supino e depois no terra. Admito que, em todos os campeonatos online que assisti, acabei dormindo em algum momento. Os presenciais têm um pouco mais de graça porque você aprende muito: profundidade de agachamento, formas de julgar, estratégias de levantador e o papel do treinador como diferencial para vitória (ou derrota) de um atleta. Porém, tudo isso são detalhes que o grande público não se interessa.

Não creio que deva haver um espaço para popularização do esporte pois isso pode modificar muito as regras e características de um esporte como o powerlifting. Um exemplo de popularização que modificou radicalmente um esporte foi o que fizeram com o vôlei: para tornar mais atrativo, retiraram a vantagem, aumentaram o número de pontos e, com isso, até as exigências de capacidade física e composição corporal dos atletas mudaram. E o pior: o dinheiro a mais que o esporte ganhou com sua popularização não foi revertida exclusivamente para os atletas e comissão técnica. Recentes escândalos de desvio de verba feita por dirigentes mostram que, infelizmente, mais dinheiro é igual a mais roubo.

 

MAD – Se não é para ser um “esporte de massas”, para que serve o powerlifting? Tem que servir para alguma coisa?

Serve par entender um dos fenômenos que mais intriga e fascina o ser humano ao longo de sua história: a expressão máxima de força. Esse esporte acaba criando modelos de periodização que, se corretamente adaptados, servem para preparação desportiva de qualquer esporte pois ajuda a ter ganhos importantes de força e essa variável tem se mostrado cada vez mais importante na diminuição de lesão e de aumento da capacidade de trabalho dos atletas. Nos últimos 30 anos de pesquisa com esportes, a preparação física se mostrou o grande diferencial de performance de qualquer atleta e essa evolução veio acompanhada de uma diminuição da importância do treinamento aeróbio e de uma ascensão do treinamento resistido e do ganho de força. Portanto, entender a máxima expressão dessa variável nos ajudará a criar soluções para diversos enigmas esportivos. Se fosse um laboratório de pesquisa, powerlifters seriam modelos experimentais. E modelos experimentais são o alicerce da pesquisa básica no mundo.

 

MAD – Quais são as suas referências no treinamento físico?

Começarei do Brasil para o mundo: Marília Coutinho, Riccardo Rambo, Eric Brown, Swede Burns, Louie Simmons. Faço um parênteses a toda a escola russa de treinamento que transformou o amadorismo e casualidade em ciência e uma máquina de resultados e conquistas olímpicas. Citarei Yuri Verkhoshansky apenas por ser um dos meus preferidos dessa magnífica escola.

 

MAD – O que é ser atleta para você? O que você diria para quem quer se tornar um?

Ser atleta significa fazer uma escolha: nessa escolha, você deve ponderar se tudo que você abrirá mão vai valer o sacrifício. A medalha é apenas um pedaço de metal com uma fita pra facilitar seu transporte. O que a pessoa tem que pensar é se o significado daquilo vai valer a pena pra você. Significa pra você ser campeão do mundo? Significa pra você quebrar um recorde mundial? Se a resposta pra essas perguntas forem sim, se pergunte: Vale a pena abrir mão de uma “vida social”? Vale a pena conviver todo dia com dores que a maioria das pessoas vai ao hospital e faltam no trabalho? Vale a pena passar centenas de horas por ano dentro de uma sala treinando, com pouco apoio, somente para se preparar pra um campeonato? Se tudo isso fizer sentido pra você, vá em frente.

Como conselho pra um pretendente a se tornar atleta eu diria:

1- Tenha um treinador e CONFIE nele. Não se pode dizer que o trabalho de alguém é bom ou ruim se você não se permitiu ser treinado por um ano competitivo inteiro. E, por favor, SIGA EXATAMENTE o que ele disser pra você fazer.

2- Confie na sua periodização. Siga RIGOROSAMENTE sua planilha de treino. Não faça UM ABDOMINAL sequer que não esteja prescrito pra você naquela sessão de treino (não importa se o treino ficaria mais dividido com esse abdominal a mais).

3- Por mais que você seja um atleta de alto rendimento e uma exceção genética, entenda que vitórias e derrotas são circunstanciais. Acordar num dia bom pode fazer toda diferença na sua performance porque ninguém sabe como os mecanismos de inibição e supercompensação funcionam.

4- Anote seu treino e enxergue como cada sessão é como se fosse um tijolo que construirá o prédio da sua vitória. Cada repetição importa e é uma oportunidade de corrigir detalhes importantes e ganhar experiência. Aproveite e se divirta com processo.

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Nota pública da MAD Powerlifting sobre manifestações em mídias sociais do aluno Fabricio

Pela primeira vez em muitas décadas somadas de experiência em ensino superior, tivemos um aluno que se descontrolou e difamou um dos professores e o curso (atacando, assim, a MAD Powerlifting). O aluno o fez em seus canais do Facebook e Instagram.

A boa metodologia pedagógica impede que estes conflitos ocorram: ainda que alunos não se sintam sempre à vontade, que entrem em conflito uns com os outros, há técnicas para administrar tudo harmonicamente. Esta metodologia pedagógica também dá ao professor recursos para que jamais o conflito se estenda a ele, pois de sua autoridade depende o bom andamento do curso. O professor de nível superior tem a responsabilidade de não permitir que qualquer perturbação ocorra, com diversos instrumentos pedagógicos para tal.

A MAD Powerlifting é um sistema de educação continuada em treinamento de força inédito no Brasil. Temos parceiros, mas não concorrentes diretos. Temos um grau relativamente alto de visibilidade no meio do treinamento físico.

O caso que enseja o presente esclarecimento é de um aluno específico, cuja agenda não é clara. Pode ser uma agenda comercial, política ou apenas uma situação de instabilidade emocional.

O aluno da MAD Powerlifting Fabrício Leão matriculou-se no primeiro semestre para o programa completo de seis níveis de nosso sistema de educação continuada em treinamento de força. No entanto, desde o primeiro dia, mostrou que tinha uma afiliação metodológica contrária à metodologia da MAD Powerlifting. Além disso, constrangeu os demais alunos, tornando necessário chamar atenção calmamente em aula, dizendo a ele que seria necessário que ele “controlasse sua necessidade de falar”, já que ele demonstrava um grau de ansiedade descontrolado, falando junto com a professora e junto com quaisquer alunos que se manifestassem.

É obrigação do professor encarregado da aula expositiva controlar tais manifestações, que podem ocorrer.

Durante as práticas de todos os cursos, o aluno Fabrício Leão não conseguia conter sua necessidade de expressar sua filiação ao sistema de Charles Poliquin, tornando totalmente impossível ensina-lo a agachar, entre outros movimentos.

Não apenas o aluno não se permitiu qualquer oportunidade de aprendizado, como passou a buscar influenciar os demais alunos, os quais manifestaram, em particular, desconforto com a situação.

No dia 12 de setembro, durante o curso nível 3 da MAD Powerlifting, o aluno Fabricio Leão mais uma vez insistiu em executar o movimento do agachamento de maneira inconsistente com nossa metodologia, reiterando sua filiação ao sistema Poliquin.

Foi então que a Dra. Marilia Coutinho desautorizou o sistema em nosso curso, fato que já havia sido repetido, inclusive por e-mail, para todos os alunos: nenhum “guru” de treinamento seria discutido ou admitido em sala de aula.

O aluno Fabrício se retirou e fez pelo menos 5 postagens difamando a MAD Powerlifting e atacando sua treinadora chefe, Dra. Marília Coutinho.

Meses atrás, um consultor de marketing havia previsto que em breve alguém se matricularia como aluno com o único intuito de gerar controvérsia com a Dra. Marília, com a finalidade de se promover. Em marketing, poucas coisas são mais eficientes do que a controvérsia envolvendo uma autoridade no campo.

Assim, o comportamento do aluno Fabrício Leão nos sugere algumas dúvidas:

1.   Por que uma pessoa que é filiada a um sistema rigorosamente oposto à metodologia da MAD Powerlifting se matricularia em nosso programa se não fosse para criar situações de conflito?

2.   Por que esta pessoa seguidamente provocaria a professora chefe com interrupções e tentativas de se antecipar às suas explicações, mesmo diante do desconforto dos alunos?

3.   Por que esta mesma pessoa insistiria, em mídia social, em marcar os professores da MAD junto com seus adversários intelectuais, como se estivessem todos em situação de igualdade?

Deixamos propositalmente estas dúvidas em aberto. Elas sugerem possíveis respostas, porém não temos dados concretos para produzir nenhuma conclusão definitiva.

Ficam as perguntas, inevitáveis, discutidas com alunos e simpatizantes.

O investimento do aluno para os cursos finais foi integralmente reembolsado. Prometemos a nossos alunos que daqui por diante, qualquer comportamento suspeito no primeiro curso do programa fará com que não aceitemos mais a inscrição do aluno no restante do programa. Ninguém mais será exposto ao desconforto que o aluno Fabrício impôs a nossos alunos.

Este assunto termina aqui. Qualquer reação do aluno Fabrício será administrada segundo orientação de nossos advogados. Nenhum “bate-boca” digital ocorrerá.

Atenciosamente,

Equipe MAD Powerlifting

OBS – a imagem é o espaço onde estavam os Buddhas de Bamiyan, figuras esculpidas na rocha no século VI e destruidas pelo Taliban

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Entrevista com o Prof. Andre Hohl: da educação física à educação esportiva – pensamentos de um educador

MAD – Andre, conte um pouco sobre você: onde e quando você nasceu, como é sua família e como foi sua infância. Que tipo de atividade você mais curtia quando pequeno?

Eu nasci em São Paulo (Capital) em abril de 1978, tenho, portanto 37 anos. Minha família sempre foi muito presente em minha educação quando criança e adolescente. Lembro-me dos horários de aulas extracurriculares que eu e meu irmão tínhamos com meu pai sobre os mais diversos assuntos, desde matemática, teoria musical, física, filosofia, entre outras. Na época eu achava isso tudo muito chato e preferia jogar bola com meus amigos, mas depois, mais velho, percebi a tremenda importância que estes períodos tiveram em minha vida e em minha forma de pensar. Na verdade isso me ensinou a pensar.

Desde criança gostava de atividade física. Subir em árvores (pois é, naquela época as crianças ainda faziam isso), jogar bola, esconde-esconde, pega-pega, taco, e por ai vai. Tive uma infância cheia de amigos e muito rica em termos motores e sempre fui incentivado a tal. Acho que minha paixão pela atividade física vem quase de berço, já que meu pai também sempre foi atleta e jogou inclusive no time de basquete júnior do Flamengo.

 

MAD – Como foi sua Educação Física escolar? Se você pudesse hoje conversar com seus professores daquele tempo, o que você diria?

Foi bem padrão para a época. Três vezes por semana normalmente, a maior parte do tempo era com esportes de bola (futebol, vôlei, basquete, handebol) e com pequenos períodos de outras atividades, normalmente relacionadas ao atletismo e algumas brincadeiras. Eu costumava achar, logo que sai da faculdade de educação física, que a ed. física escolar era muito pobre, mas hoje penso um pouco diferente. Logico, sempre pode e deve haver melhora, mas comparado ao que vejo hoje, um mundo em que as crianças têm cada vez mais liberdade pra não fazer absolutamente nada e ficam o dia inteiro sentadas no sofá no celular ou no vídeo game, comparando a este cenário, acredito que tive uma educação física escolar bem razoável. Dadas as atuais circunstancias acho que diria a eles que continuassem fazendo o que estavam fazendo, pois pelos menos eles estavam fazendo algo que teve impacto positivo na aquisição de padrões motores da maioria das crianças, como teve na minha. Nós corríamos, pulávamos, saltávamos, jogávamos todos os principais esportes coletivos, brincávamos de queimada, pular cela, pular corda, etc.. Eu não sei se a criançada de hoje em dia faz sequer metade do que fazíamos nessas aulas.  Sinto hoje que pelo menos tinham boa vontade, trabalhavam com o que dava pra fazer. Agora num cenário ideal, talvez a resposta fosse um pouco mais longa e outros fatores pudessem ser analisados.

 

MAD – Antes da faculdade, você praticou algum esporte? Como foi?

Sempre pratiquei esportes, mas o esporte que pratiquei competitivamente por mais de 25 anos foi o judô. Em termos de resultados competitivos fui um atleta mediano, tive alguns bons resultados, mas nada extraordinário. A concorrência sempre foi forte no judô, há muitos anos temos atletas de altíssimo nível no judô nacional, o que faz com este seja um esporte difícil de se destacar. Depois do futebol o judô é o esporte mais praticado (com atletas federados) no Brasil. O judô no Brasil é um dos poucos esportes que traz medalhas olímpicas com constância. Se não me engano, desde a Olimpíada de Los Angeles em 1984, o Brasil trouxe medalhas no judô em todas as olimpíadas até hoje. Além de ser o esporte que trouxe o maior numero de medalhas para o Brasil.

 

MAD – Como foi a decisão de cursar Educação Física?

Foi uma decisão natural, apesar de não ser o primeiro curso que pensei em fazer. Em minha primeira FUVEST prestei geofísica (pois é…) e até passei pra segunda fase. Mas olhando para trás hoje foi bom não ter ido adiante nessa carreira. Acho que não ia dar muito certo a longo prazo.  Sempre tive boa aptidão física e sempre estive envolvido com o esporte, portando nada mais natural que cursar educação física. E hoje vejo que foi a decisão certa. Gosto muito do que faço e não consigo me ver fazendo outra coisa.

 

MAD – Judo: como e por que?

Entrar no judô não foi uma decisão minha. Foi do meu pai. Eu era criança, tinha apenas sete anos e eu não decidia muito coisa nessa época. Hoje vejo muita sabedoria nisso. Uma criança não tem condições e nem ferramentas cognitivas para tomar esse tipo de decisão. Na minha opinião as crianças hoje tem muita liberdade de escolha e isso normalmente não funciona bem. No meu caso, não que eu não gostasse de judô quando era pequeno, mas estava sempre querendo faltar pra jogar bola, ou jogar vídeo game ou qualquer outra coisa mais interessante (no momento) que surgisse. Mas meu pai estava sempre lá e não deixava isso acontecer. Na época isso era chato, muito chato, já que eu não tinha condições para entender por que ele fazia isso. Quando peguei minha faixa preta pude compreender a razão de todos esses anos de “encheção de saco” e tive uma gratidão profunda pelo que ele fez. O judô teve grande impacto em minha personalidade, minha identidade, minha forma de ser e pensar. Acho que sem o judô eu seria outra pessoa. Ele meu deu diretrizes, foco, determinação, aprender a levantar quando cair (figurativa e literalmente) e mais importante respeito e humildade (nada melhor pra ensinar humildade, do que tomar uma surra de um atleta melhor do que você).

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MAD – Levantamento olímpico: como você conheceu e como se envolveu com ele?

Eu sou amigo do Horácio Reis, irmão mais velho do Fernando Reis há muitos anos, mesmo antes do Fernando começar a treinar. Durante algum tempo o Horácio, sempre que me encontrava, dizia que eu tinha que ir lá ao Clube Pinheiros pra aprender LPO, mas sempre ficava nisso. Certo dia, quando eu menos esperava, ele me convidou pra treinar e aprender LPO lá com ele. Foi muito bacana, pois treinava no período da tarde um pouco antes dos melhores atletas do Brasil treinarem e pude acompanhar de perto um pouco do treinamento deles. Nessa época a família Reis já estava num período embrionário de abrir um centro de treinamento e como eu tinha interesse, gostava de estudar e treinar, e já os conhecia a um certo tempo, acabei sendo o primeiro e único (na época)  professor, que não era da família, a trabalhar com eles no que viria a ser o CT F.Reis. Tenho muito orgulho disso e também gratidão por toda a família por me darem essa oportunidade e confiarem em meu trabalho.

 

MAD – Como você se define como treinador? O que é ser treinador para você?

Eu sempre gostei de ensinar, desde criança. Inicialmente não tinha nada a ver com altruísmo. Eu gostava de ensinar, porque aos poucos fui percebendo que quando ensinava alguma coisa a alguém, eu mesmo aprendia muito. Era uma forma de solidificar e compreender mais profundamente certas coisas que muitas vezes eu mesmo ainda não tinha claro e o processo de ensinar a outro me forçava a ver a mesma coisa de outro ângulo, ou criar estratégias e analogias para poder melhor demonstrar o que eu queria. Como vocês podem imaginar esse é um processo mental muito rico e cada vez que ensinava, eu aprendia, e isso virou um ciclo. Nesse sentido posso dizer que sou um treinador nato, eu nasci pra ser treinador e professor, pois isso é o que faço com gosto, com prazer. Eu fico realmente muito feliz quando um atleta ou aluno consegue transpor uma barreira em seu treinamento e eu sei que fiz parte daquilo. Fico feliz por ele e por mim. Dessa forma consigo ver a importância do treinador e do professor (do que quer que seja) na vida das pessoas e como tenho uma enorme gratidão por todos que foram meus treinadores e professores. Pra mim, poder dar continuidade a essa tradição é impagável, já que são os professores que propagam o conhecimento humano através dos tempos.

 

MAD – Musculação: o que é isso para você? Se você tivesse que transformara as salas de musculação no seu ideal, como faria?

A grande maioria dos professores de educação física que pretendem seguir na área de treinamento, pelo menos na época em que me formei, acabavam quase que necessariamente, dentro de uma sala de musculação. Eu não fui exceção, trabalhei anos em uma. Não posso dizer que não aprendi nada, algumas coisas boas claro, mas muito do que aprendi foi como NÃO se deve fazer as coisas.  Uma ênfase em exercícios supérfluos, muitas séries, muitas repetições, muitas maquinas e uma falta de entendimento, compreensão e experiência por parte dos professores dos movimentos REALMENTE úteis e necessários, como o agachamento, levantamento terra, a forma correta (e segura) de se fazer um supino, o desenvolvimento em pé, entre outros. Soma-se a isso um planejamento de treino advindo única e exclusivamente do fisiculturismo. Não tenho absolutamente nada contra o fisiculturismo, mas para a grande maioria das pessoas, essa não é a melhor abordagem para o treinamento. A esmagadora maioria delas se beneficiaria MUITO mais com um programa de treinamento muito mais simples, com poucos movimentos (os básicos que citei acima) e um volume de series e repetições muito menor. Se dependesse de mim eu não faria investimento em termos de aparelhos e sim em termo de material humano competente. Meus professores teriam que saber mostrar, ensinar e ter domínio desses movimentos básicos, de PRINICÍPIOS de treinamento (já que esses são aplicáveis em qualquer caso), pois bons professores conseguem dar uma boa aula com o que tem disponível (isso não quer dizer que o equipamento disponível não deva ser de boa qualidade, apenas que o realmente necessário é muito mais simples do que as pessoas acham). Fariam com que os professores fizessem cursos que realmente fossem fazer diferença nesse aspecto (como os que a MADPowerlifting oferece) e em termos de equipamento, investiria meu dinheiro em barras, anilhas, bancos, suportes, plataformas e barras fixas de qualidade e muito pouco além disso.

 

MAD – Quais são as suas referências no treinamento físico?

São muitas. Gosto muito das metodologias russas de treinamento, mas também gosto da escola americana. Ambos tem abordagens interessantes e campeões para provarem que elas funcionam. Entre todos eles, eu sempre gostei de um em particular, o Pavel Tsatsouline.  A abordagem “low tech, high concept” de seu sistema e o fato de sempre dar o credito devido a todos os autores e metodologias que ele cita e que influenciaram seu pensamento, sempre me chamou a atenção e eu aprendi muito com seus livros e artigos (já li todos eles, pelo menos duas vezes cada um). Pra quem não o conhece, ele foi o introdutor kettlebell no século 21. Graças a ele essa ferramenta de treinamento de mais de 3 séculos de existência chegou ao ocidente de forma bombástica. 15 anos depois poucas pessoas que fazem atividade física não sabem o que é um kettlebell. Claro, ele não é o único que me influenciou, a lista na verdade é grande, mas diria que ele foi o principal.

 

MAD – Quem são seus ídolos no esporte? Com quem você mais aprendeu?

Existem vários, a grande maioria do judô, que foi o esporte que pratiquei competitivamente, como o Yamashita, o Koga, entre outros. Admiro também vários atletas dos esportes de força, como o lendário Ed Coan, Bill Kazmaier, Mariuz Pudzianowski, Lu Xiaojun, meu amigo Fernando Reis (que é o maior atleta de LPO que o Brasil já produziu e que tenho o privilégio de conviver), entre muito outros. Difícil responder com quem mais aprendi, mas diria que meu sensei de judô, Luis Alberto dos Santos foi um deles. Cada pessoa (que tem algo a acrescentar, claro) que eu entro em contato no mundo dos esportes de luta ou de força, me ensinaram algo, sem exceção. Meus amigos Marilia Coutinho e Hugo Quinteiro foram duas delas. O Fernando Reis e seu técnico Luiz Lopes também. Minha convivência diária com muitos atletas da nata do esporte brasileiro são uma rica fonte de conhecimento, basta estar atento e ter vontade de aprender. Aprendi muito também a partir de minhas leituras, meus estudos e minha própria pratica e experiências, estes são professores muito bons também.

 

MAD – Esporte e Educação Física no Brasil: o que não está bem, o que está bem e o que falta?

Muita coisa a meu ver. Mas em meu entendimento, o principal que consigo identificar, é a falta de uma cultura física e esportiva dentro das escolas e no país de forma geral. No Brasil, tem muita gente que acha que educação física é jogar futebol na quadra duas ou três vezes por semana. Eu não tenho absolutamente nada contra o esporte futebol, pelo contrario, joguei muito, mas muito futebol quando criança, mas tenho algumas coisas contra o que a instituição futebol representa. Toda essa cultura futebolística brasileira me desagrada e muito. Parece que o único esporte que existe para o brasileiro é o futebol. Tudo gira em torno do futebol, a esmagadora maioria dos recursos vai para o futebol. O futebol não chega nem perto de cobrir todas as bases de movimentos, gestos e padrões motores que uma criança precisa desenvolver. Portanto, essa nossa carência cultural de variedade esportiva é um grande empecilho no desenvolvimento de uma educação física e desenvolvimento atlético sólidos no nosso país.

 

 

MAD – Comparando com outros países, o que você diria do Brasil nos seguintes ítens:

- educação física escolar

- detecção e seleção de talentos esportivos

- treinamento esportivo em ambiente escolar (até universitário) e em geral

- o papel da atividade física na saúde

- o papel do esporte na sociedade

 

Em relação ao que chamamos de países desenvolvidos, estamos muito aquém em todos estes itens. Como disse, nos falta essa cultura física e atlética fora dos esportes com bola e principalmente o futebol. Sinceramente, não vejo isso mudando tão cedo. Mesmo para atletas de elite dentro dos esportes “menores” tudo é muito difícil. Não há patrocínio. Não há apoio. Não há exposição nas escolas e nem há gente especializada para ensinar.

Em relação ao papel do esporte na sociedade, o único deles que realmente importa à grande maioria da sociedade brasileira é o futebol e podemos observar tristes, dentro de um estádio, que tipo de “valores” essa cultura futebolística trás ao povo.

 

MAD – Você tem um irmão fisioterapeuta. Como você vê a interação entre a fisioterapia e a educação física?

Vejo a fisioterapia e a educação física quase com se fosse uma coisa só, ou pelo menos um continuum onde não se enxerga uma linha divisória explicita. Ambos deveriam estar presentes na aquisição, manutenção e resgate de padrões motores fundamentais. Ambos deveriam estar presentes nos períodos de recuperação. Talvez em fases diferentes, mas ambos deveriam estar ali. A interação com meu irmão é fácil justamente por isso, nós nos entendemos fácil e rapidamente, pois muito do conteúdo estudado por um, foi (ou deveria ter sido) estudado pelo outro.

Sobre discussões técnicas em aula ou ambiente digital

Achei por bem abordar o assunto hoje, até porque eu sumi das discussões digitais e algumas pessoas me perguntam o motivo. A maior parte nem pergunta mais: tem sido complicado dar conta de tanta coisa nesse momento.

Quando há necessidade e eu sou chamada, no entanto, eu apareço e esclareço a questão técnica em questão. Acho que é o meu papel.

O motivo deste artigo é chamar atenção para um fenômeno que venho observando como padrão, ao longo dos meus vinte e tantos anos como professora de ensino superior: é o indivíduo que projeta na discussão um desconforto interno. Creio que quase todo leitor vai recordar de algum exemplo ao longo do texto.

Abre-se um tópico, pessoas comentam ou fazem perguntas. Então vem um sujeito (ou mais) e faz, em geral, um comentário crítico. Leva tempo para entender exatamente qual é o foco da crítica, porque o texto ou discurso do interlocutor é longo e elaborado. No entanto, está lá: há uma crítica. O grupo ou outro interlocutor responde. Em seguida, aquele mesmo indivíduo apresenta outro ponto de crítica, não relacionado ao primeiro. Também bem elaborado.

Se não houver uma moderação objetiva e “de professor”, em pouco tempo o que deveria ser uma discussão coletiva vira um diálogo. E aquele indivíduo expressa um rosário de desconfortos com o tema, o texto, o autor, seja lá o que for.

Eu vi isso acontecer umas… centenas de vezes. É mais chato em aula presencial, porque em 10 minutos o resto da classe começa a se mexer na cadeira. Nasce o desconforto contra o desconforto. As pessoas em geral não levantam a mão para solicitar: “professora, isso está enchendo o saco e não me interessa. Daria para voltar para a aula?” Quando isso acontece é sinal que a gente, como professor, falhou em exercer a autoridade.

E aí a aula degenera: começa um conflito entre o sujeito original cheio de desconfortos e vários outros alunos.

Outro padrão é o do aluno que resolve ser o foco das atenções e dar aula junto com o professor. Tem professor que é devorado por esse tipo de aluno. A turma detesta. É aquele aluno que tem algo para dizer sobre tudo, o tempo todo, e faz questão de exibir erudição sobre todos os tópicos. O professor, com a vantagem de estar de frente para a classe, percebe o olhar de ódio dos demais alunos, que estão fantasiando enforcar a estrelinha. Por incrível que pareça, isso acontece até mesmo em cursos caros e pagos.

Eu tenho um certo orgulho em dizer que isso não acontece nas minhas aulas. Eu percebo rapidamente a coisa. Principalmente porque, no presencial, eu olho todos os alunos nos olhos.

Pois bem, eu não deixo isso acontecer. A questão de ser ou não autoritária é uma não-questão: é minha obrigação garantir o espaço de todos, reprimindo relativamente a expressão destes indivíduos quando invadem e pervertem a discussão geral. São pessoas que só vão conseguir superar este comportamento quando entenderem que é a manifestação de uma neurose sua, e decidirem trabalhá-la com um terapeuta. A classe não é espaço para isso. Nem o grupo digital.

É isso.

Entrevista Luciano Dias: o criador do “Strongman adaptado”

MAD – Luciano, conte um pouco sobre você: onde e quando você nasceu, como é sua família e como foi sua infância. Que tipo de atividade você mais curtia quando pequeno?

LUCIANO – Eu nasci em São Paulo, mais especificamente na zona norte. Nasci em 11 de junho de 1981. Minha família é de Minas Gerais. Meu pai sendo o irmão mais velho deixou a roça e veio pra São Paulo em busca de uma vida melhor. Logo depois voltou para se casar e trazer minha mãe (que também trabalhava na lavoura) para São Paulo também. Em 1981 eu nasci. Minha infância foi bem simples, mas muito feliz e saudável. Adorava brincar de coisas que hoje em dia infelizmente estão se perdendo como: Esconde-esconde, bola de gude pega-pega e por aí vai. Só nunca fui muito fã de pipas e balões, mas brincar da famosa ”lutinha” era espetacular. Sempre fui fascinado por artes marciais. E depois de brincar de luta com meu tio, este tentou convencer meu pai a me colocar no karatê. Eu queria muito, mas meu pai sempre me enrolava rs….. Dizendo que era só para adultos rs… Como cresci em um bairro pobre, não sei se o motivo era me manter ocupado, ou me manter longe de más amizades, consequentemente longe das drogas, ou simplesmente para ter um futuro melhor, mas meus pais fizeram questão de investir na minha educação. Eu estudava em escola publica e aos 9 anos minha mãe me matriculou em um curso de Inglês. Por ter um tio que morava e mora até hoje em Nova Iorque e ter vencido na vida depois de muito trabalho (pois também trabalhava na roça), creio que foi um dos motivos para que minha mãe me matriculasse no curso. Por ser criança, tinha muita facilidade e desenvolvi rápido meu inglês. Nesta mesma época consegui convencer meus pais a me deixarem fazer o tão sonhado karatê. Esta fase foi bem corrida porque fazia inglês duas vezes na semana, karatê três vezes e trabalhava em uma lanchonete ajudando meu pai (isso com uns 11 ou 12 anos). Logo depois disso comecei a sentir fortes dores na coluna lombar por conta de uma escoliose. As dores eram insuportáveis. Creio que a fase do estirão tenha contribuído para isso. Lembro que em fases extremas eu não conseguia ir para a escola e muitas vezes meu pai tinha que me carregar de um cômodo a outro da casa por não conseguir andar. E aos doze anos tive uma grande decepção: um médico mal preparado (obvio), disse que eu deveria parar com o karatê imediatamente e começar a fazer natação. Nesta época eu era faixa verde. Era o aluno mais novo e o mais graduado e coincidentemente o mais novo no curso de inglês também. Revoltei-me e disse que já que teria que parar o karatê pararia o Inglês também. Graças a Deus minha mãe não deixou. Ela sempre foi muito esperta rs… Jogava com o psicológico. Ela dizia que eles deixavam de colocar coisas em casa…. às vezes atrasava o aluguel… tudo pra que eu não precisasse parar com meu curso e eu ia jogar tudo fora? Então continuei né? Rs fazer oque? Rs. E então comecei com a natação. Mas como gravei uma frase do meu tio na qual dizia: “Tudo que você se predispor a fazer, faça bem. Seja o melhor”. Então por mais que eu não fosse muito fã de natação, me dediquei. Tinha o melhor tempo nas avaliações da academia. Paralelo a isso, usava a meditação na minha cura das dores na coluna. E aos poucos foi melhorando. Aos quatorze finalmente me formei no inglês e de quatorze pra quinze praticamente estava de saco cheio de natação rs…. e quis voltar para as artes marciais. Depois de assistir a um filme de capoeira, fiquei fascinado e advinha… rs. Sim comecei a fazer capoeira. Meus pais acharam que eu estava louco pelo problema que tive na coluna, mas não deixaram de me apoiar. Graças a Deus não senti, mais dores na coluna como sentia antes, mas de vez em quando sentia um desconforto. Então nessas fases eu respeitava meus limites e maneirava nos treinos. Ao me formar no colegial, eu quis tentar durante um ano realizar meu sonho que era ser jogador de futebol. Pois apesar de não mencionar, jogava futebol também durante toda minha infância e adolescência. Então como estava em fase de se alistar no exercito e provavelmente não conseguiria emprego, resolvi tentar mais um ano. Fiz teste em um time de futebol de campo e passei. Fui para o Paraná e fui o único selecionado entre 22 jogadores para ficar. Mas como futebol rola aquela “máfia” com relação a empresários e cartolas eu me enchi.

 

MAD – Como foi sua Educação Física escolar? Se você pudesse hoje conversar com seus professores daquele tempo, o que você diria?

LUCIANO – Minha Educação física escolar foi bem pobre com relação ao desenvolvimento da criança como um todo. Porém como eu praticava outros esportes, não senti muita falta. Mas creio que se não fosse minhas atividades extras, teria um repertório motor mais comprometido. Contudo pra mim foi bom porque eu adorava futebol. E era o que fazíamos na educação física escolar: Jogava Futebol. No colegial começamos a jogar handebol. Engraçado que eu não sabia nada, então comecei a jogar no gol. Ganhei troféu de melhor goleiro, melhor atleta e goleiro menos vazado no campeonato escolar. Rs. Sinceramente não sei oque diria a meus professores se os reencontrassem. Naquela época era comum este tipo de conduta….

 

MAD – Antes da faculdade, você praticou algum esporte? Como foi?

LUCIANO – Sim muitos. Inclusive ganhei medalhas em campeonatos de Karatê, natação, Futsal, futebol e capoeira. E na faculdade joguei handebol por pouco tempo.

 

MAD – Como foi a decisão de cursar Educação Física?

LUCIANO – Na época que estava para assinar o contrato com o time do Paraná, chamei meu técnico pra conversar. Disse a ele que tinha vontade de fazer Educação Física. Tinha vontade de trabalhar com crianças em escola. E que começaria a distribuir currículo nas academias para dar aula de capoeira, pois nesta época também apesar de ser um dos mais novos, era o mais graduado na capoeira. Isto foi em dezembro de 1999. Disse ao meu técnico que faria o vestibular e se eu passasse teria até fevereiro para resolver minha situação. Caso não rolasse de assinar contrato com o time, eu ia desencanar de futebol. E assim foi. Passei no vestibular e em janeiro de 2000 distribui currículos para dar aula de capoeira. Foi uma época bem corrida, porém o pior estava por vir. Como não tinha computador, tinha que fazer o TCC na casa de amigos que tinham. E meu TCC foi entregue com um dia de atraso por não ter tido lugar para imprimir, acredita? Meu caso teve que ir pra julgamento onde todos os professores tiveram que votar para ser aceito ou não. Graças às minhas notas (pois nem podia pensar em ficar de DP porque não tinha como pagar) e ao meu relacionamento com os professores, meu TCC foi aceito e pude me formar em 2003.

 

MAD – Você teve lesões e problemas de saúde sérios. Conte um pouco como foi enfrentá-los

LUCIANO – Na verdade meu único problema serio que tive foi com relação a minha coluna lombar mesmo. Apesar de ter sido uma criança fisicamente ativa, nunca quebrei nada. Que me lembre foi só…. mas já tá bom né? Rs…. foi o suficiente

 

MAD – A escolha pela Força e pelo Strongman: como foi?

LUCIANO – Pois é…. rs Como disse anteriormente, sempre quis cursar Educação Física para trabalhar com Educação Física escolar. Quando entrei na faculdade, em janeiro de 2000, deixei currículo nas academias para dar aula de capoeira. Caso não conseguisse emprego até junho, eu teria que trancar a faculdade pois não tinha como meus pais pagarem sozinhos minha faculdade. Em abril eu consegui um emprego na área de telemarketing, na qual trabalhei por 9 meses e não aguentei mais. Precisava de algo na minha área. Fui mandado embora dia 9 de janeiro de 2001. Incrivelmente dia 10 (no dia seguinte) o telefone de casa toca. Era a proprietária de uma academia falando sobre o currículo que tinha deixado há um ano. Me espantei e confesso que me arrepio ainda quando falo sobre isso. Pois foi ali o marco e o divisor de aguas da minha vida. Mas tinha um detalhe: Eles precisavam de professor de musculação, não de capoeira. Mas eu disse que iria lá pra conversar. Cheguei lá todo “mirradinho” e acertamos de começar no dia seguinte. Foi a minha sorte, pois EU NUNCA TINHA TREINADO MUSCULAÇÃO NA VIDA RS. Sai de lá e a primeira coisa que fiz foi passar na casa de um amigo e falar: “Fauze, vamos lá na academia onde você treina e você vai me falar o nome de cada aparelho e pra que serve cada um”. Então fomos. Lembro que tinham algumas pessoas treinando e viam meu amigo me explicando e diziam: “Você vai dar aula? E nunca treinou? Complicado hein?”. E dali saí com minha “bíblia” que guardo até hoje. Um caderninho que continha informações “valiosíssimas” como: 3 de quinze é pra emagrecer e 4 de 10 é hipertrofia  há há há….. Eu estava no segundo ano da faculdade, nunca tinha treinado e seria professor de uma academia de ferreiros de verdade! Não seria estagiário não! Seria o único professor da sala mesmo! Foi sem duvida uma das maiores escolas que tive na vida. Lembro que no primeiro dia os caras me olharam como se quisessem falar: “O que esse frango tá fazendo aqui” rs. E assim foi…. Alguns alunos me pediam ajuda com alguns exercícios e eu mal sabia como ajudar. Comecei a me virar lendo muito livro e conversando muito com alunos mais experientes. Neste período obvio que comecei a treinar musculação, Kung Fu e MMA (que na época era chamado de vale-tudo). E comecei a dar muita atenção para os alunos que não eram tão “grandes”. E com isso começaram a vir muitos alunos para o meu horário. Em quatro meses que comecei a treinar e acertar minha dieta meu corpo mudou drasticamente! Era o estimulo que faltava e era a genética respondendo. Agora podia entender na pratica porque meus tios da lavoura eram todos “trincados”. Porque minha avó tinha antebraços fortes e vascularizados. Vi naquele período que não largaria jamais aquilo. Ali era meu mundo. Comecei com a ideia de ser fisiculturista. Cheguei a fazer apresentação na academia, mas não passou disso. Nesta época conheci um atleta de supino chamado Silvio Vitório. Eu já tinha me aprofundado tanto na musculação que aqueles alunos que me achavam uma zebra me respeitavam muito a esta altura. (Até hoje quando visito as academias que trabalhei, a academia para para vir falar comigo. É muito gratificante). Dei uns toques no treino do Silvio e fui acompanha-lo no que foi chamado de primeiro campeonato brasileiro de strongman. Não é considerado oficial porque não tinha nenhuma federação na época. Ele me convenceu a entrar na categoria até 100 kg. Decidi na hora, só ia acompanha-lo mesmo. Mas resolvi tentar a sorte rs. E foi ali que digo que o strongman me escolheu. Não fui eu quem escolheu o strongman. Ele me escolheu. Os gritos liberados durante as provas a sensação de puxar um caminhão foi algo indescritível que me arrepia até hoje. Aquela foi a hora que eu me encontrei. Exorcizei todos os meus problemas. Antes das provas lembrava das noites sem dormir fazendo trabalhos da faculdade. Trabalhar em duas academias e estudar a noite. O fato de quase não ter conseguido me formar…… tudo isso subia pro peito e bum! A força vinha e não sabia como contê-la….. Mas não era mesmo pra contê-la…. era para usá-la…. deixar explodir. E isso era demais! Depois que me formei fui trabalhar em Alphaville com musculação e kung fu, onde conheci meu técnico, Hussein Omairi, que foi praticamente um segundo pai pra mim. Ele era do levantamento olímpico e tinha um método de treino na qual consistia em treinar só os exercícios básicos de cada musculo, porém todos os dias! Isso, todo dia! Experimentei e minha força decolou na época. Ele fazia um trabalho mental comigo fantástico na qual aplicava na minha vida pessoal. Lembro que saia da academia que trabalhava aqui em São Paulo as 22:00hs. Chegava em Alphaville e treinávamos até 0:00 e depois caia na piscina gelada. Era estilo Rock Balboa há há há. Passado este período fui aprimorando meus treinos e alimentação até chegar ao meu ritmo atual

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MAD – Você é conhecido por aplicar elementos do Strongman ao treinamento em geral: por que?

LUCIANO – A meu ver o strongman é a modalidade que mais se assemelha com as atividades da vida diária. Contém os elementos básicos como levantar, empurrar, puxar, arrastar e transportar. Ao fazer este tipo de treino você melhora e muito seu objetivo final que pode ser o power lifting, artes marciais e outros. Pois você fica mais ágil, resistente, forte e rápido. Tudo que seu corpo precisa.

 

MAD – o trabalho com idosos: fale um pouco sobre essa opção e como é trabalhar com essa população

LUCIANO – O strongman trabalha diversas capacidades físicas como foi dito anteriormente. Capacidades estas que ficam mais comprometidas com o passar dos anos. São elas: força, equilíbrio, resistência, coordenação dentre outras. Nos não percebemos a importância destas capacidades, pois as temos bem desenvolvidas (pelo menos para as atividades da vida diária). Na velhice percebemos o quão elas são importantes ao ver a dificuldade de um idoso caminhar, levantar e sentar, transportar objetos de um lugar a outro e se equilibrarem. Minha família e eu vimos minha superação na época que tive as crises de dores lombares e, mais que isso, após passar por este problema de saúde, levantar as cargas que levanto e praticar o esporte que pratico, levou-me a tentar proporcionar uma vida mais digna a pessoas que um dia fizeram (e ainda fazem) muito por nós: IDOSOS. Como disse, minha pós-graduação foi nesta área. E hoje dou aula na mesma pós-graduação de esportes de força e, um dos temas abordados é o strongman competitivo e adaptado. Como disse anteriormente o strongman é muito parecido com as atividades da vida diária. Oque faço é adaptar as limitações e incluir no treinamento das capacidades físicas mencionadas no início. Por exemplo: no arremesso de barril, eu adapto e faço com que eles arremessem almofadas trabalhando explosão, equilíbrio e coordenação. Este é só um dos exemplos, temos inúmeros. Muitos de meus pacientes voltaram a andar, saíram da cadeira de rodas, pois estavam enfraquecidos, com sarcopenia (perda de massa muscular e consequentemente de força) e totalmente dependentes. Mais do que força, você poder devolver a uma pessoa a dignidade, é sem duvida no mínimo gratificante.

 

MAD – Você tem agora uma filhinha recém-nascida. Como é ter tanta intimidade com as duas pontas do desenvolvimento da força (bebês e idosos)?

LUCIANO – Tenho sim… a Isa. Ela é o meu Norte. E sim, já brinco com ela introduzindo aos poucos movimentos básicos. Deixo sempre ela brincando no chão (claro que coberto) e quero que continue assim. Quero que, apesar dos dias de hoje contribuir para que nossas crianças cresçam cada vez mais sedentárias, ela tenha uma infância saudável como eu tive. Com isso ter uma boa fase adulta e consequentemente uma boa velhice. Hoje tenho uma academia que trabalha o strongman adaptado. Pra quem não teve a oportunidade de se cuidar desde o inicio, minha dica é que não só para o strongman, mas para qualquer coisa que queira fazer na vida, NUNCA É TARDE! E como preparador de atletas de diversas modalidades, fico feliz em vê-los concluírem uma prova, validar um movimento, marcar um ponto, porém gratificante também é você fazer com que um idoso consiga se levantar sozinho de uma cadeira e diga a ele: VALIDO O MOVIMENTO!

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Entrevista com Vinicius Barbosa

MAD – Fale um pouco sobre você, Vinicius: onde e quando nasceu, como foi sua infância e como é sua família.

Sou de Goiânia, Goiás. Nasci em 1985, quando as crianças brincavam muito mais nas ruas e computadores e jogos eletrônicos ainda estavam por vir. Joguei muito “golzinho” na rua do prédio em que eu morava, rodava o bairro de bicicleta e patins, adorava artes marciais – pratiquei caratê durante alguns anos – e também fiz natação. Os jogos contra outros prédios do bairro nos campos de terra renderam momentos inesquecíveis! Na escola nunca me furtei de participar das modalidades da educação física obrigatória: futsal, basquete, handebol e vôlei. Foi uma infância movimentada, eu diria.  Do tipo que não se vê mais hoje em dia.

MAD – Quando você era pequeno, o que mais interessava você?

Eu adorava artes marciais. Assistia a todos os filmes do gênero e praticava caratê. Também jogava muito futebol.  A gente chutava bola de meia, tampinha de garrafa, fazia golzinho na rua, campo de terra, e tudo mais que se podia inventar. Mas eu dividia estas atividades com o vídeo game, era a época de ouro do Super Nintendo e depois a primeira geração do Playstation. Eu não sei como conseguíamos fazer tanta coisa naquela época! Em meados da década de 90 ganhei meu primeiro PC. Aquilo me fascinou; passei a dizer que queria me formar e trabalhar com computação. E mais tarde foi justamente o primeiro caminho que segui profissionalmente.

MAD – Escolha profissional: como você escolheu o que estudar e como foi a “primeira carreira”?

No 2º ano do ensino médio entrei no curso técnico de Telecomunicações, já pensando na Engenharia de Computação que pretendia cursar posteriormente. Terminado o curso de Telecom ingressei, via concurso, na Celg (Companhia de Energia Elétrica de Goiás) e ao mesmo tempo iniciei meus estudos em engenharia de computação na Universidade Federal de Goiás. Foram mais de 5 anos de curso superior no qual, embora eu tivesse boas notas e tenha feito grandes amizades, eu nunca me senti integrado naquele mundo. Um indício disto era minha falta de interesse em assuntos de computação e programação fora do currículo escolar. Eu até estudava! Me graduei com média global acima de 8. Razoável, não? Mas aquilo não era minha vocação. Acredito que o relativo sucesso nos estudos vieram da minha educação de base, mas não de um talento para mexer com computação.

MAD – Você fez uma das coisas consideradas mais ousadas na nossa sociedade super-especializada: trocou de profissão. O que motivou você a fazer isso?

Eu tinha meu diploma em engenharia de computação e um emprego estável. Mas não estava feliz! Não exercia uma função que me fosse gratificante, fazia muitas horas-extras, e foi crescendo um sentimento de insatisfação. O momento de tomar uma decisão mais drástica era aquela. Eu sabia que esta decisão significaria dar vários passos para trás até recuperar a estabilidade financeira e profissional que eu já havia conquistado. Mas eu estava com vinte e poucos anos ainda! O momento de arriscar era aquele, eu não poderia me acomodar naquela zona de conforto ilusória. Com o suporte da minha esposa (sem ela nada disto seria possível), iniciei um projeto totalmente novo, tanto pessoalmente quanto para o mercado “fitness”: abri a Arena Performance, um centro de treinamento pautado nos exercícios livres com barra e kettlebells. Este desafio duplo tornou a jornada ainda mais complicada. Primeiramente eu entrava em um campo profissional e em um mercado totalmente estranho, sobre o qual eu conhecia muito pouco. Como se não bastasse, escolhi seguir uma linha de treinamento que o grande público ignorava e ainda desconhece bastante. Quando fundei a Arena Performance não havia ocorrido este “boom” do Crossfit aqui no Brasil, tornando a adesão de novos alunos ainda mais difícil. O que me fez perseverar neste caminho foi uma certa vocação: quando você é chamado a fazer algo que vai além de qualquer recompensa imediata, que de alguma forma você não consegue deixar de fazê-lo. Confesso que já pensei em desistir. Mas não o fiz porque depois que trilhei este caminho, não me imagino fazendo outra coisa.

MAD – Por que força é tão importante?

Ser forte para mim está ligado a todas as decisões e aos rumos que tomaram minha vida desde que conheci o treino de força. Então não significa apenas ter músculos ou levantar mais carga. Eu escolhi ensinar as pessoas a se tornarem mais fortes, mostrar a elas que há mais para se ganhar do que apenas estética. A força está no CERNE de todo ser humano e as pessoas precisam redescobrir isto.

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MAD – Você escreve bastante sobre métodos de treinamento. Qual foi sua motivação para “fazer diferente”?

O treinamento tradicional feito em aparelhos nunca me chamou a atenção. Entrei na academia para me manter ativo. Estava sedentário, já não praticava com regularidade nenhum esporte, e a academia tradicional era a opção mais fácil para retomar algum nível de atividade física. Não satisfeito com aquela rotina nos aparelhos, comecei a pesquisar sobre treinamento físico e descobri outro mundo: o treinamento com pesos livres (levantamento básico, olímpico e kettlebells). Entrei de cabeça neste mundo, estudando e praticando. Aquilo sim fazia sentido! Treinar o corpo de forma integrada, através de movimentos que são o padrão fundamental da nossa motricidade e da nossa fisiologia. Eu olhava ao meu redor e não via absolutamente uma alma fazendo nada daquilo; professores instrutores das academias também totalmente alheios. Eu vi que eu poderia fazer diferente e melhor.

MAD – Arena: como está sendo a experiência de uma proposta alternativa? Quem é seu público? Como você vê o “fitness alternativo” no Brasil?

Tem sido bastante desafiador alavancar um projeto como a Arena. As mídias sociais e a popularização do crossfit têm ajudado bastante. Este ao utilizar muito dos exercícios que também utilizamos e por adotar um visual mais rústico apresenta um modelo de fitness para a sociedade que se parece com a nossa proposta, eliminando muito do estranhamento inicial e rejeição; as mídias sociais garantem uma exposição e divulgação únicas, fundamental no processo de formação e comunicação com o público que está insatisfeito com as academias tradicionais e buscam alternativa. O “fitness alternativo” está crescendo, mas tem sido parasitado pelas academias tradicionais, que abrem espaços específicos para a prática do que chamam de aulas de “funcional” e “cross”. Estes espaços, no entanto, não representam uma quebra de paradigma em como pensar o treinamento, mas simplesmente é uma resposta ao modismo, uma opção a mais entre quinhentas outras modalidades que a academia oferece ao aluno. Resumindo: uma jogada de marketing. Centros de treinamento que verdadeiramente fazem diferente existem, ainda são poucos, mas muito promissores.

MAD – A carreira de atleta de powerlifting: como foi subir no tablado pela primeira vez? E agora, para onde vai?

Escrevi em meu blog à época do primeiro campeonato que participei. Ali está registrada a experiência ainda fresca na memória, com os sentimentos mais aflorados. Transcrevo abaixo:

“…foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Impossível descrever em palavras o que aconteceu. Fiz um agachamento 10kg e um terra 15kg mais pesados que meus máximos de treino, e se eu já relatei aqui como é diferente a dinâmica do treino de força – regularmente testando seus limites, se superando treino após treino, vivendo momentos marcantes e ficando cada vez mais forte a cada ciclo de treinamento – absolutamente NADA se compara ao momento em que você completa uma repetição máxima em um tablado competitivo, em um meet de powerlifing. Não se trata ali de superar adversários, de ganhar ou sair premiado. Não. Trata-se antes de, por alguns segundos, se desligar completamente de toda complexidade mental e emotiva com as quais nos cercamos, e contemplar a essência física de SER humano. Ainda fico meio atônito, me pego muitas vezes com cara de paisagem, olhar longe e coração meio acelerado quando paro para reviver aquelas horas. Como consequência de tudo isso, a motivação e o foco para treinar estão em outro nível, muito mais elevados, e a própria experiência de treino está diferente… Enquanto escrevia este post, me recordei desta entrevista com a Marilia Coutinho, na qual ela fala sobre o levantamento perfeito:

“O levantamento de peso tem uma dimensão técnica. A segunda dimensão é neural. A terceira é mental. Mas existe um quarto passo, quando tudo isso se integra e transcende. Pra mim a execução muito integrada de um levantamento é um ato perfeito. Só vivi isso umas três vezes. Já não sou eu, não é o meu corpo, minha mente. Não tem peso na sua mão. Não tem mão! Uma dissolução tão grande que é como se o movimento fosse a única coisa acontecendo. E, por ser movimento, ele passa. Mas naquela hora não há temporalidade. É um momento de iluminação: você entende a natureza do movimento e, ao entender isso, você entende quem você é.” “

Meu objetivo é alcançar marcas cada vez mais expressivas para em futuro próximo participar de um campeonato mundial. A tarefa é árdua. Conciliar a gestão da academia, com aulas, treinamento, alimentação e família é complicado. Mas vejo essa busca como uma peça fundamental na minha carreira e também pessoalmente.

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MAD – Treinar atletas e treinar pessoas em busca de outros objetivos: é diferente? De que jeito?

Muito diferente. O atleta tem uma motivação intrínseca em ser cada vez melhor, então o desafio se torna escolher os meios e métodos de treinamento mais eficientes para os objetivos dele. Próximo à competição vem aquela expectativa, a prova definitiva se as escolhas foram acertadas ou não. Lidar com o público em geral requer outras habilidades. Creio que a principal delas é a capacidade de manter a adesão do aluno ao programa de treino. Então não basta ser um expert em métodos de treinamento e periodização, é preciso motivar, explicar, incentivar. Existe uma carga emocional e psicológica muito grande quando se trata do público em geral. Este aspecto no atleta é mais específico, está ligada à competição em si. No aluno comum é uma miríade de fatores: familiares, conjugais, financeiros etc. Acrescente a isto a reeducação alimentar que este aluno muito provavelmente deve fazer! De fato não é fácil.