Reinventando a roda: quando a falsa autoridade vem de pesquisa redundante

O problema com o “publish or perish” é que o sujeito TEM que publicar, nem que seja lixo. Nem que seja para demonstrar que numa amostra standardizada de aranhas com n=150, em triplicata, 100% fica surda se as 8 pernas forem arrancadas.

Já vi de tudo nesse mundão de meudeus das universidades brasileiras: professor titular medindo atividade respiratória de diferentes espécies de copépodos, com zero acréscimo em conhecimento científico universal, às custas de grana da FAPESP para viajar para lugares paradisíacos para coletar outras espécies de copépodos que respiravam da mesma maneira.

Agora temos uma demonstração quantitativa sobre a alteração de movimento no levantamento terra causada pelo uso de strap.

Putz… vai mudar a vida de todo treinador de força. Vai todo mundo sair correndo e mudar o planejamento competitivo dos seus atletas. O Hugo vai fazer terapia 4 vezes por semana. Por uma semana, pairará a dúvida sobre como proceder nos esportes de força.

Só que não.

Todo mundo já sabe isso há uns 60 anos. Desde que strap era pedaço de faixa de judô arrebentada.

Sério mesmo: publicar um artigo sobre isso tem lá sua validade. mas não torna ninguém expert em esporte. Só dá um “up” no Lattes do neguinho.

Vamos ver os próximos: vamos provar que atividade física regular melhora a condição de mulhers pós-menupausa com osteoporose? Ou que inativos podem adotar diferentes protocolos que dá na mesma? Ah, tudo bem: escolhe aí um desses tópicos que qualquer treinador de força já sabe há meio século. Pelo menos.

Para indivíduos inativos, quase todo protocolo funciona

Sério mesmo, tenho toda a simpatia pelos colegas que estão no sistema público de ensino superior e pesquisa, precisam apresentar produção constante para complementar o salário, para ter um lugar ao sol ou simplesmente para existir no sistema e se desesperam para publicar qualquer coisa. Um dia essa exigência fez sentido mas, como tanta coisa, acabou sendo pervertida.

O problema, como quase sempre, é a transparência. Não precisa vir a público reclamar do sistema, dizer “olha a porcaria que eu fui obrigado a publicar” – nada disso. Deixa quieto: a gente entende.

Agora, ter uma coleção de obviedades publicadas com inativo, mulheres peri-menopausa, aluno, rato, gato, bactéria e bater no peito se dizendo a última trakinas do pacotinho nas ciências do esporte não dá.

Da hora entender como atividade física funciona com inativos. Na verdade, talvez socialmente até mais relevante. Mas não pode em hipótese alguma generalizar os resultados para atleta. A única coisa em comum entre os dois grupos é pertencer à mesma espécie (e olhe lá, hein).

O que vale para inativo raramente vale para atleta ou indivíduo treinado. Ter uma coleção de publicações com essa população não dá a ninguém autoridade para falar grosso como cientista do esporte.

Sabe quem é a vítima desse comportamento? O recém-formado, o treinador sem formação avançada, ou o colega tetando se encontrar no mar de informação científica. Ele não tem obrigação de entender como funciona o sistema acadêmico e cai como um pato nas estorinhas para boi dormir que os gurus da falsa ciência do esporte contam.

Feio isso, hein.

Vou contar um segredinho para vocês: eu gasto um tempinho de cada curso com o capítulo sobre o que NÃO se sabe naquele tema. Sabem por que? Primeiro, porque nosso aluno trabalha no mundo real e é mais importante dar a ele instrumentos para se virar nas situações em que a ciência não resolve o problema dele. Segundo, porque sinceridade não constrói guru, mas não enganar o próximo ajuda a dormir melhor.