Sobre discussões técnicas em aula ou ambiente digital

Achei por bem abordar o assunto hoje, até porque eu sumi das discussões digitais e algumas pessoas me perguntam o motivo. A maior parte nem pergunta mais: tem sido complicado dar conta de tanta coisa nesse momento.

Quando há necessidade e eu sou chamada, no entanto, eu apareço e esclareço a questão técnica em questão. Acho que é o meu papel.

O motivo deste artigo é chamar atenção para um fenômeno que venho observando como padrão, ao longo dos meus vinte e tantos anos como professora de ensino superior: é o indivíduo que projeta na discussão um desconforto interno. Creio que quase todo leitor vai recordar de algum exemplo ao longo do texto.

Abre-se um tópico, pessoas comentam ou fazem perguntas. Então vem um sujeito (ou mais) e faz, em geral, um comentário crítico. Leva tempo para entender exatamente qual é o foco da crítica, porque o texto ou discurso do interlocutor é longo e elaborado. No entanto, está lá: há uma crítica. O grupo ou outro interlocutor responde. Em seguida, aquele mesmo indivíduo apresenta outro ponto de crítica, não relacionado ao primeiro. Também bem elaborado.

Se não houver uma moderação objetiva e “de professor”, em pouco tempo o que deveria ser uma discussão coletiva vira um diálogo. E aquele indivíduo expressa um rosário de desconfortos com o tema, o texto, o autor, seja lá o que for.

Eu vi isso acontecer umas… centenas de vezes. É mais chato em aula presencial, porque em 10 minutos o resto da classe começa a se mexer na cadeira. Nasce o desconforto contra o desconforto. As pessoas em geral não levantam a mão para solicitar: “professora, isso está enchendo o saco e não me interessa. Daria para voltar para a aula?” Quando isso acontece é sinal que a gente, como professor, falhou em exercer a autoridade.

E aí a aula degenera: começa um conflito entre o sujeito original cheio de desconfortos e vários outros alunos.

Outro padrão é o do aluno que resolve ser o foco das atenções e dar aula junto com o professor. Tem professor que é devorado por esse tipo de aluno. A turma detesta. É aquele aluno que tem algo para dizer sobre tudo, o tempo todo, e faz questão de exibir erudição sobre todos os tópicos. O professor, com a vantagem de estar de frente para a classe, percebe o olhar de ódio dos demais alunos, que estão fantasiando enforcar a estrelinha. Por incrível que pareça, isso acontece até mesmo em cursos caros e pagos.

Eu tenho um certo orgulho em dizer que isso não acontece nas minhas aulas. Eu percebo rapidamente a coisa. Principalmente porque, no presencial, eu olho todos os alunos nos olhos.

Pois bem, eu não deixo isso acontecer. A questão de ser ou não autoritária é uma não-questão: é minha obrigação garantir o espaço de todos, reprimindo relativamente a expressão destes indivíduos quando invadem e pervertem a discussão geral. São pessoas que só vão conseguir superar este comportamento quando entenderem que é a manifestação de uma neurose sua, e decidirem trabalhá-la com um terapeuta. A classe não é espaço para isso. Nem o grupo digital.

É isso.

Entrevista Luciano Dias: o criador do “Strongman adaptado”

MAD – Luciano, conte um pouco sobre você: onde e quando você nasceu, como é sua família e como foi sua infância. Que tipo de atividade você mais curtia quando pequeno?

LUCIANO – Eu nasci em São Paulo, mais especificamente na zona norte. Nasci em 11 de junho de 1981. Minha família é de Minas Gerais. Meu pai sendo o irmão mais velho deixou a roça e veio pra São Paulo em busca de uma vida melhor. Logo depois voltou para se casar e trazer minha mãe (que também trabalhava na lavoura) para São Paulo também. Em 1981 eu nasci. Minha infância foi bem simples, mas muito feliz e saudável. Adorava brincar de coisas que hoje em dia infelizmente estão se perdendo como: Esconde-esconde, bola de gude pega-pega e por aí vai. Só nunca fui muito fã de pipas e balões, mas brincar da famosa ”lutinha” era espetacular. Sempre fui fascinado por artes marciais. E depois de brincar de luta com meu tio, este tentou convencer meu pai a me colocar no karatê. Eu queria muito, mas meu pai sempre me enrolava rs….. Dizendo que era só para adultos rs… Como cresci em um bairro pobre, não sei se o motivo era me manter ocupado, ou me manter longe de más amizades, consequentemente longe das drogas, ou simplesmente para ter um futuro melhor, mas meus pais fizeram questão de investir na minha educação. Eu estudava em escola publica e aos 9 anos minha mãe me matriculou em um curso de Inglês. Por ter um tio que morava e mora até hoje em Nova Iorque e ter vencido na vida depois de muito trabalho (pois também trabalhava na roça), creio que foi um dos motivos para que minha mãe me matriculasse no curso. Por ser criança, tinha muita facilidade e desenvolvi rápido meu inglês. Nesta mesma época consegui convencer meus pais a me deixarem fazer o tão sonhado karatê. Esta fase foi bem corrida porque fazia inglês duas vezes na semana, karatê três vezes e trabalhava em uma lanchonete ajudando meu pai (isso com uns 11 ou 12 anos). Logo depois disso comecei a sentir fortes dores na coluna lombar por conta de uma escoliose. As dores eram insuportáveis. Creio que a fase do estirão tenha contribuído para isso. Lembro que em fases extremas eu não conseguia ir para a escola e muitas vezes meu pai tinha que me carregar de um cômodo a outro da casa por não conseguir andar. E aos doze anos tive uma grande decepção: um médico mal preparado (obvio), disse que eu deveria parar com o karatê imediatamente e começar a fazer natação. Nesta época eu era faixa verde. Era o aluno mais novo e o mais graduado e coincidentemente o mais novo no curso de inglês também. Revoltei-me e disse que já que teria que parar o karatê pararia o Inglês também. Graças a Deus minha mãe não deixou. Ela sempre foi muito esperta rs… Jogava com o psicológico. Ela dizia que eles deixavam de colocar coisas em casa…. às vezes atrasava o aluguel… tudo pra que eu não precisasse parar com meu curso e eu ia jogar tudo fora? Então continuei né? Rs fazer oque? Rs. E então comecei com a natação. Mas como gravei uma frase do meu tio na qual dizia: “Tudo que você se predispor a fazer, faça bem. Seja o melhor”. Então por mais que eu não fosse muito fã de natação, me dediquei. Tinha o melhor tempo nas avaliações da academia. Paralelo a isso, usava a meditação na minha cura das dores na coluna. E aos poucos foi melhorando. Aos quatorze finalmente me formei no inglês e de quatorze pra quinze praticamente estava de saco cheio de natação rs…. e quis voltar para as artes marciais. Depois de assistir a um filme de capoeira, fiquei fascinado e advinha… rs. Sim comecei a fazer capoeira. Meus pais acharam que eu estava louco pelo problema que tive na coluna, mas não deixaram de me apoiar. Graças a Deus não senti, mais dores na coluna como sentia antes, mas de vez em quando sentia um desconforto. Então nessas fases eu respeitava meus limites e maneirava nos treinos. Ao me formar no colegial, eu quis tentar durante um ano realizar meu sonho que era ser jogador de futebol. Pois apesar de não mencionar, jogava futebol também durante toda minha infância e adolescência. Então como estava em fase de se alistar no exercito e provavelmente não conseguiria emprego, resolvi tentar mais um ano. Fiz teste em um time de futebol de campo e passei. Fui para o Paraná e fui o único selecionado entre 22 jogadores para ficar. Mas como futebol rola aquela “máfia” com relação a empresários e cartolas eu me enchi.

 

MAD – Como foi sua Educação Física escolar? Se você pudesse hoje conversar com seus professores daquele tempo, o que você diria?

LUCIANO – Minha Educação física escolar foi bem pobre com relação ao desenvolvimento da criança como um todo. Porém como eu praticava outros esportes, não senti muita falta. Mas creio que se não fosse minhas atividades extras, teria um repertório motor mais comprometido. Contudo pra mim foi bom porque eu adorava futebol. E era o que fazíamos na educação física escolar: Jogava Futebol. No colegial começamos a jogar handebol. Engraçado que eu não sabia nada, então comecei a jogar no gol. Ganhei troféu de melhor goleiro, melhor atleta e goleiro menos vazado no campeonato escolar. Rs. Sinceramente não sei oque diria a meus professores se os reencontrassem. Naquela época era comum este tipo de conduta….

 

MAD – Antes da faculdade, você praticou algum esporte? Como foi?

LUCIANO – Sim muitos. Inclusive ganhei medalhas em campeonatos de Karatê, natação, Futsal, futebol e capoeira. E na faculdade joguei handebol por pouco tempo.

 

MAD – Como foi a decisão de cursar Educação Física?

LUCIANO – Na época que estava para assinar o contrato com o time do Paraná, chamei meu técnico pra conversar. Disse a ele que tinha vontade de fazer Educação Física. Tinha vontade de trabalhar com crianças em escola. E que começaria a distribuir currículo nas academias para dar aula de capoeira, pois nesta época também apesar de ser um dos mais novos, era o mais graduado na capoeira. Isto foi em dezembro de 1999. Disse ao meu técnico que faria o vestibular e se eu passasse teria até fevereiro para resolver minha situação. Caso não rolasse de assinar contrato com o time, eu ia desencanar de futebol. E assim foi. Passei no vestibular e em janeiro de 2000 distribui currículos para dar aula de capoeira. Foi uma época bem corrida, porém o pior estava por vir. Como não tinha computador, tinha que fazer o TCC na casa de amigos que tinham. E meu TCC foi entregue com um dia de atraso por não ter tido lugar para imprimir, acredita? Meu caso teve que ir pra julgamento onde todos os professores tiveram que votar para ser aceito ou não. Graças às minhas notas (pois nem podia pensar em ficar de DP porque não tinha como pagar) e ao meu relacionamento com os professores, meu TCC foi aceito e pude me formar em 2003.

 

MAD – Você teve lesões e problemas de saúde sérios. Conte um pouco como foi enfrentá-los

LUCIANO – Na verdade meu único problema serio que tive foi com relação a minha coluna lombar mesmo. Apesar de ter sido uma criança fisicamente ativa, nunca quebrei nada. Que me lembre foi só…. mas já tá bom né? Rs…. foi o suficiente

 

MAD – A escolha pela Força e pelo Strongman: como foi?

LUCIANO – Pois é…. rs Como disse anteriormente, sempre quis cursar Educação Física para trabalhar com Educação Física escolar. Quando entrei na faculdade, em janeiro de 2000, deixei currículo nas academias para dar aula de capoeira. Caso não conseguisse emprego até junho, eu teria que trancar a faculdade pois não tinha como meus pais pagarem sozinhos minha faculdade. Em abril eu consegui um emprego na área de telemarketing, na qual trabalhei por 9 meses e não aguentei mais. Precisava de algo na minha área. Fui mandado embora dia 9 de janeiro de 2001. Incrivelmente dia 10 (no dia seguinte) o telefone de casa toca. Era a proprietária de uma academia falando sobre o currículo que tinha deixado há um ano. Me espantei e confesso que me arrepio ainda quando falo sobre isso. Pois foi ali o marco e o divisor de aguas da minha vida. Mas tinha um detalhe: Eles precisavam de professor de musculação, não de capoeira. Mas eu disse que iria lá pra conversar. Cheguei lá todo “mirradinho” e acertamos de começar no dia seguinte. Foi a minha sorte, pois EU NUNCA TINHA TREINADO MUSCULAÇÃO NA VIDA RS. Sai de lá e a primeira coisa que fiz foi passar na casa de um amigo e falar: “Fauze, vamos lá na academia onde você treina e você vai me falar o nome de cada aparelho e pra que serve cada um”. Então fomos. Lembro que tinham algumas pessoas treinando e viam meu amigo me explicando e diziam: “Você vai dar aula? E nunca treinou? Complicado hein?”. E dali saí com minha “bíblia” que guardo até hoje. Um caderninho que continha informações “valiosíssimas” como: 3 de quinze é pra emagrecer e 4 de 10 é hipertrofia  há há há….. Eu estava no segundo ano da faculdade, nunca tinha treinado e seria professor de uma academia de ferreiros de verdade! Não seria estagiário não! Seria o único professor da sala mesmo! Foi sem duvida uma das maiores escolas que tive na vida. Lembro que no primeiro dia os caras me olharam como se quisessem falar: “O que esse frango tá fazendo aqui” rs. E assim foi…. Alguns alunos me pediam ajuda com alguns exercícios e eu mal sabia como ajudar. Comecei a me virar lendo muito livro e conversando muito com alunos mais experientes. Neste período obvio que comecei a treinar musculação, Kung Fu e MMA (que na época era chamado de vale-tudo). E comecei a dar muita atenção para os alunos que não eram tão “grandes”. E com isso começaram a vir muitos alunos para o meu horário. Em quatro meses que comecei a treinar e acertar minha dieta meu corpo mudou drasticamente! Era o estimulo que faltava e era a genética respondendo. Agora podia entender na pratica porque meus tios da lavoura eram todos “trincados”. Porque minha avó tinha antebraços fortes e vascularizados. Vi naquele período que não largaria jamais aquilo. Ali era meu mundo. Comecei com a ideia de ser fisiculturista. Cheguei a fazer apresentação na academia, mas não passou disso. Nesta época conheci um atleta de supino chamado Silvio Vitório. Eu já tinha me aprofundado tanto na musculação que aqueles alunos que me achavam uma zebra me respeitavam muito a esta altura. (Até hoje quando visito as academias que trabalhei, a academia para para vir falar comigo. É muito gratificante). Dei uns toques no treino do Silvio e fui acompanha-lo no que foi chamado de primeiro campeonato brasileiro de strongman. Não é considerado oficial porque não tinha nenhuma federação na época. Ele me convenceu a entrar na categoria até 100 kg. Decidi na hora, só ia acompanha-lo mesmo. Mas resolvi tentar a sorte rs. E foi ali que digo que o strongman me escolheu. Não fui eu quem escolheu o strongman. Ele me escolheu. Os gritos liberados durante as provas a sensação de puxar um caminhão foi algo indescritível que me arrepia até hoje. Aquela foi a hora que eu me encontrei. Exorcizei todos os meus problemas. Antes das provas lembrava das noites sem dormir fazendo trabalhos da faculdade. Trabalhar em duas academias e estudar a noite. O fato de quase não ter conseguido me formar…… tudo isso subia pro peito e bum! A força vinha e não sabia como contê-la….. Mas não era mesmo pra contê-la…. era para usá-la…. deixar explodir. E isso era demais! Depois que me formei fui trabalhar em Alphaville com musculação e kung fu, onde conheci meu técnico, Hussein Omairi, que foi praticamente um segundo pai pra mim. Ele era do levantamento olímpico e tinha um método de treino na qual consistia em treinar só os exercícios básicos de cada musculo, porém todos os dias! Isso, todo dia! Experimentei e minha força decolou na época. Ele fazia um trabalho mental comigo fantástico na qual aplicava na minha vida pessoal. Lembro que saia da academia que trabalhava aqui em São Paulo as 22:00hs. Chegava em Alphaville e treinávamos até 0:00 e depois caia na piscina gelada. Era estilo Rock Balboa há há há. Passado este período fui aprimorando meus treinos e alimentação até chegar ao meu ritmo atual

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MAD – Você é conhecido por aplicar elementos do Strongman ao treinamento em geral: por que?

LUCIANO – A meu ver o strongman é a modalidade que mais se assemelha com as atividades da vida diária. Contém os elementos básicos como levantar, empurrar, puxar, arrastar e transportar. Ao fazer este tipo de treino você melhora e muito seu objetivo final que pode ser o power lifting, artes marciais e outros. Pois você fica mais ágil, resistente, forte e rápido. Tudo que seu corpo precisa.

 

MAD – o trabalho com idosos: fale um pouco sobre essa opção e como é trabalhar com essa população

LUCIANO – O strongman trabalha diversas capacidades físicas como foi dito anteriormente. Capacidades estas que ficam mais comprometidas com o passar dos anos. São elas: força, equilíbrio, resistência, coordenação dentre outras. Nos não percebemos a importância destas capacidades, pois as temos bem desenvolvidas (pelo menos para as atividades da vida diária). Na velhice percebemos o quão elas são importantes ao ver a dificuldade de um idoso caminhar, levantar e sentar, transportar objetos de um lugar a outro e se equilibrarem. Minha família e eu vimos minha superação na época que tive as crises de dores lombares e, mais que isso, após passar por este problema de saúde, levantar as cargas que levanto e praticar o esporte que pratico, levou-me a tentar proporcionar uma vida mais digna a pessoas que um dia fizeram (e ainda fazem) muito por nós: IDOSOS. Como disse, minha pós-graduação foi nesta área. E hoje dou aula na mesma pós-graduação de esportes de força e, um dos temas abordados é o strongman competitivo e adaptado. Como disse anteriormente o strongman é muito parecido com as atividades da vida diária. Oque faço é adaptar as limitações e incluir no treinamento das capacidades físicas mencionadas no início. Por exemplo: no arremesso de barril, eu adapto e faço com que eles arremessem almofadas trabalhando explosão, equilíbrio e coordenação. Este é só um dos exemplos, temos inúmeros. Muitos de meus pacientes voltaram a andar, saíram da cadeira de rodas, pois estavam enfraquecidos, com sarcopenia (perda de massa muscular e consequentemente de força) e totalmente dependentes. Mais do que força, você poder devolver a uma pessoa a dignidade, é sem duvida no mínimo gratificante.

 

MAD – Você tem agora uma filhinha recém-nascida. Como é ter tanta intimidade com as duas pontas do desenvolvimento da força (bebês e idosos)?

LUCIANO – Tenho sim… a Isa. Ela é o meu Norte. E sim, já brinco com ela introduzindo aos poucos movimentos básicos. Deixo sempre ela brincando no chão (claro que coberto) e quero que continue assim. Quero que, apesar dos dias de hoje contribuir para que nossas crianças cresçam cada vez mais sedentárias, ela tenha uma infância saudável como eu tive. Com isso ter uma boa fase adulta e consequentemente uma boa velhice. Hoje tenho uma academia que trabalha o strongman adaptado. Pra quem não teve a oportunidade de se cuidar desde o inicio, minha dica é que não só para o strongman, mas para qualquer coisa que queira fazer na vida, NUNCA É TARDE! E como preparador de atletas de diversas modalidades, fico feliz em vê-los concluírem uma prova, validar um movimento, marcar um ponto, porém gratificante também é você fazer com que um idoso consiga se levantar sozinho de uma cadeira e diga a ele: VALIDO O MOVIMENTO!

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Entrevista com Vinicius Barbosa

MAD – Fale um pouco sobre você, Vinicius: onde e quando nasceu, como foi sua infância e como é sua família.

Sou de Goiânia, Goiás. Nasci em 1985, quando as crianças brincavam muito mais nas ruas e computadores e jogos eletrônicos ainda estavam por vir. Joguei muito “golzinho” na rua do prédio em que eu morava, rodava o bairro de bicicleta e patins, adorava artes marciais – pratiquei caratê durante alguns anos – e também fiz natação. Os jogos contra outros prédios do bairro nos campos de terra renderam momentos inesquecíveis! Na escola nunca me furtei de participar das modalidades da educação física obrigatória: futsal, basquete, handebol e vôlei. Foi uma infância movimentada, eu diria.  Do tipo que não se vê mais hoje em dia.

MAD – Quando você era pequeno, o que mais interessava você?

Eu adorava artes marciais. Assistia a todos os filmes do gênero e praticava caratê. Também jogava muito futebol.  A gente chutava bola de meia, tampinha de garrafa, fazia golzinho na rua, campo de terra, e tudo mais que se podia inventar. Mas eu dividia estas atividades com o vídeo game, era a época de ouro do Super Nintendo e depois a primeira geração do Playstation. Eu não sei como conseguíamos fazer tanta coisa naquela época! Em meados da década de 90 ganhei meu primeiro PC. Aquilo me fascinou; passei a dizer que queria me formar e trabalhar com computação. E mais tarde foi justamente o primeiro caminho que segui profissionalmente.

MAD – Escolha profissional: como você escolheu o que estudar e como foi a “primeira carreira”?

No 2º ano do ensino médio entrei no curso técnico de Telecomunicações, já pensando na Engenharia de Computação que pretendia cursar posteriormente. Terminado o curso de Telecom ingressei, via concurso, na Celg (Companhia de Energia Elétrica de Goiás) e ao mesmo tempo iniciei meus estudos em engenharia de computação na Universidade Federal de Goiás. Foram mais de 5 anos de curso superior no qual, embora eu tivesse boas notas e tenha feito grandes amizades, eu nunca me senti integrado naquele mundo. Um indício disto era minha falta de interesse em assuntos de computação e programação fora do currículo escolar. Eu até estudava! Me graduei com média global acima de 8. Razoável, não? Mas aquilo não era minha vocação. Acredito que o relativo sucesso nos estudos vieram da minha educação de base, mas não de um talento para mexer com computação.

MAD – Você fez uma das coisas consideradas mais ousadas na nossa sociedade super-especializada: trocou de profissão. O que motivou você a fazer isso?

Eu tinha meu diploma em engenharia de computação e um emprego estável. Mas não estava feliz! Não exercia uma função que me fosse gratificante, fazia muitas horas-extras, e foi crescendo um sentimento de insatisfação. O momento de tomar uma decisão mais drástica era aquela. Eu sabia que esta decisão significaria dar vários passos para trás até recuperar a estabilidade financeira e profissional que eu já havia conquistado. Mas eu estava com vinte e poucos anos ainda! O momento de arriscar era aquele, eu não poderia me acomodar naquela zona de conforto ilusória. Com o suporte da minha esposa (sem ela nada disto seria possível), iniciei um projeto totalmente novo, tanto pessoalmente quanto para o mercado “fitness”: abri a Arena Performance, um centro de treinamento pautado nos exercícios livres com barra e kettlebells. Este desafio duplo tornou a jornada ainda mais complicada. Primeiramente eu entrava em um campo profissional e em um mercado totalmente estranho, sobre o qual eu conhecia muito pouco. Como se não bastasse, escolhi seguir uma linha de treinamento que o grande público ignorava e ainda desconhece bastante. Quando fundei a Arena Performance não havia ocorrido este “boom” do Crossfit aqui no Brasil, tornando a adesão de novos alunos ainda mais difícil. O que me fez perseverar neste caminho foi uma certa vocação: quando você é chamado a fazer algo que vai além de qualquer recompensa imediata, que de alguma forma você não consegue deixar de fazê-lo. Confesso que já pensei em desistir. Mas não o fiz porque depois que trilhei este caminho, não me imagino fazendo outra coisa.

MAD – Por que força é tão importante?

Ser forte para mim está ligado a todas as decisões e aos rumos que tomaram minha vida desde que conheci o treino de força. Então não significa apenas ter músculos ou levantar mais carga. Eu escolhi ensinar as pessoas a se tornarem mais fortes, mostrar a elas que há mais para se ganhar do que apenas estética. A força está no CERNE de todo ser humano e as pessoas precisam redescobrir isto.

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MAD – Você escreve bastante sobre métodos de treinamento. Qual foi sua motivação para “fazer diferente”?

O treinamento tradicional feito em aparelhos nunca me chamou a atenção. Entrei na academia para me manter ativo. Estava sedentário, já não praticava com regularidade nenhum esporte, e a academia tradicional era a opção mais fácil para retomar algum nível de atividade física. Não satisfeito com aquela rotina nos aparelhos, comecei a pesquisar sobre treinamento físico e descobri outro mundo: o treinamento com pesos livres (levantamento básico, olímpico e kettlebells). Entrei de cabeça neste mundo, estudando e praticando. Aquilo sim fazia sentido! Treinar o corpo de forma integrada, através de movimentos que são o padrão fundamental da nossa motricidade e da nossa fisiologia. Eu olhava ao meu redor e não via absolutamente uma alma fazendo nada daquilo; professores instrutores das academias também totalmente alheios. Eu vi que eu poderia fazer diferente e melhor.

MAD – Arena: como está sendo a experiência de uma proposta alternativa? Quem é seu público? Como você vê o “fitness alternativo” no Brasil?

Tem sido bastante desafiador alavancar um projeto como a Arena. As mídias sociais e a popularização do crossfit têm ajudado bastante. Este ao utilizar muito dos exercícios que também utilizamos e por adotar um visual mais rústico apresenta um modelo de fitness para a sociedade que se parece com a nossa proposta, eliminando muito do estranhamento inicial e rejeição; as mídias sociais garantem uma exposição e divulgação únicas, fundamental no processo de formação e comunicação com o público que está insatisfeito com as academias tradicionais e buscam alternativa. O “fitness alternativo” está crescendo, mas tem sido parasitado pelas academias tradicionais, que abrem espaços específicos para a prática do que chamam de aulas de “funcional” e “cross”. Estes espaços, no entanto, não representam uma quebra de paradigma em como pensar o treinamento, mas simplesmente é uma resposta ao modismo, uma opção a mais entre quinhentas outras modalidades que a academia oferece ao aluno. Resumindo: uma jogada de marketing. Centros de treinamento que verdadeiramente fazem diferente existem, ainda são poucos, mas muito promissores.

MAD – A carreira de atleta de powerlifting: como foi subir no tablado pela primeira vez? E agora, para onde vai?

Escrevi em meu blog à época do primeiro campeonato que participei. Ali está registrada a experiência ainda fresca na memória, com os sentimentos mais aflorados. Transcrevo abaixo:

“…foi uma das experiências mais marcantes da minha vida. Impossível descrever em palavras o que aconteceu. Fiz um agachamento 10kg e um terra 15kg mais pesados que meus máximos de treino, e se eu já relatei aqui como é diferente a dinâmica do treino de força – regularmente testando seus limites, se superando treino após treino, vivendo momentos marcantes e ficando cada vez mais forte a cada ciclo de treinamento – absolutamente NADA se compara ao momento em que você completa uma repetição máxima em um tablado competitivo, em um meet de powerlifing. Não se trata ali de superar adversários, de ganhar ou sair premiado. Não. Trata-se antes de, por alguns segundos, se desligar completamente de toda complexidade mental e emotiva com as quais nos cercamos, e contemplar a essência física de SER humano. Ainda fico meio atônito, me pego muitas vezes com cara de paisagem, olhar longe e coração meio acelerado quando paro para reviver aquelas horas. Como consequência de tudo isso, a motivação e o foco para treinar estão em outro nível, muito mais elevados, e a própria experiência de treino está diferente… Enquanto escrevia este post, me recordei desta entrevista com a Marilia Coutinho, na qual ela fala sobre o levantamento perfeito:

“O levantamento de peso tem uma dimensão técnica. A segunda dimensão é neural. A terceira é mental. Mas existe um quarto passo, quando tudo isso se integra e transcende. Pra mim a execução muito integrada de um levantamento é um ato perfeito. Só vivi isso umas três vezes. Já não sou eu, não é o meu corpo, minha mente. Não tem peso na sua mão. Não tem mão! Uma dissolução tão grande que é como se o movimento fosse a única coisa acontecendo. E, por ser movimento, ele passa. Mas naquela hora não há temporalidade. É um momento de iluminação: você entende a natureza do movimento e, ao entender isso, você entende quem você é.” “

Meu objetivo é alcançar marcas cada vez mais expressivas para em futuro próximo participar de um campeonato mundial. A tarefa é árdua. Conciliar a gestão da academia, com aulas, treinamento, alimentação e família é complicado. Mas vejo essa busca como uma peça fundamental na minha carreira e também pessoalmente.

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MAD – Treinar atletas e treinar pessoas em busca de outros objetivos: é diferente? De que jeito?

Muito diferente. O atleta tem uma motivação intrínseca em ser cada vez melhor, então o desafio se torna escolher os meios e métodos de treinamento mais eficientes para os objetivos dele. Próximo à competição vem aquela expectativa, a prova definitiva se as escolhas foram acertadas ou não. Lidar com o público em geral requer outras habilidades. Creio que a principal delas é a capacidade de manter a adesão do aluno ao programa de treino. Então não basta ser um expert em métodos de treinamento e periodização, é preciso motivar, explicar, incentivar. Existe uma carga emocional e psicológica muito grande quando se trata do público em geral. Este aspecto no atleta é mais específico, está ligada à competição em si. No aluno comum é uma miríade de fatores: familiares, conjugais, financeiros etc. Acrescente a isto a reeducação alimentar que este aluno muito provavelmente deve fazer! De fato não é fácil.